A DEPRESSÃO DO VELHO OU A DEMÊNCIA APARENTE (I)

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Nuno Gonçalves

Nuno Gonçalves

Velho. Primeira expressão politicamente incorrecta cujo refrão infalível era (é) “…são os trapos!” e com este remate deitava-se no lixo todo o valor, significado e conteúdo do velho e da velhice. Sempre desconfiei do politicamente correcto e dos interesses que se desvelam a cerzir os seus proveitos nos bastidores das metáforas semânticas. Os velhos são um subproduto descartável da sociedade fashion, de gente esplendorosa e fascinante com a mesma consistência e brilho de um plástico barato.

Esquecemos-mos que hoje vivemos, qual civilização assente sobre o substrato de impérios pregressos, confortavelmente instalados sobre as obras ainda bem sólidas e vivas desses velhos que no-las deixaram a custo zero, -sim zero porque os que descontaram a essas prestações têm direito pois é do seu dinheiro que se trata e os outros que não descontaram foram espoliados em trabalhos sem benefícios nem regalias dos direitos e dos proventos proporcionais ao que produziram- tudo aquilo que consideramos um direito adquirido, senão divino e a que não damos importância ou o incómodo de um olhar.

Sim, esses velhos vivem as consequências das suas opções de vida. Migrando para os meios urbanos e industriais na procura de melhores condições, todos, ou de melhores garantias para a família que viessem a constituir, muitos, desferiram um corte completo e definitivo, sem disso terem a menor consciência nem percepção, com todo um existir civilizacional de vida em comunidade, completa, autónoma e, importante, diversa na sua constituição social e etária.

Os núcleos familiares que entretanto constituíram viram-se privados dessa aprendizagem do viver na diversidade comunitária e foram ainda mais profundamente atingidos pela estropiação que a perda dos velhos constituiu. Perdeu-se o seu saber e essa escola de vida que ensina a quem com eles lida a saber envelhecer sem se sentir diminuído ou pária.

A maior parte das pessoas sentiria mais facilidade em estabelecer contacto com um alienígena que contactar com um velho, de tão estranho e raro este se tornou para eles.

Acumula essa estranheza o facto da ruptura dialéctica familiar criar novos paradigmas e realidades desconhecidas. Numa família em que as habilitações parentais abrangiam da iliteracia ao fraco domínio das letras, a simples conclusão do ensino primário facultava aos filhos uma escolaridade superior à dos pais. Ignorando o velho aforismo “Mau o Mestre cujo discípulo não o supera” os filhos não perceberam que os gigantes sobre cujos ombros caminharam estavam na sua própria casa. Assim o aumento do sucesso escolar filial cavava cada vez mais fundo esse cosmos mental e cultural que se veio a revelar funesto para as famílias. Para os velhos, é certo, mas também para os seus filhos que perdem nessa clivagem a identidade pessoal e familiar que esses velhos lhes davam, assim como a profundidade de um passado.

Sempre que usamos uma metáfora compactuamos com a consequente menorização e estigmatização da expressão, do conceito, do sujeito. Como aquelas pessoas que, cobardes na expressão franca e clara do palavrão, recorrem à expressão de aparente similitude fonética para simularem uma educação que pretendem aparentar mas que derrubam pela simples vaga evocação da asneira.

O mercado tritura os velhos por razões que têm menos a ver com a produtividade e mais a ver com as relações de poder dentro das organizações. Conhecimento é poder e sabemos bem como os da velha guarda são valiosos na sua capacidade de ultrapassar e resolver situações fruto do seu saber e da sua experiência e o receio aflito que tal poder pode gerar.

Acresce que hoje é difícil definir um velho. O que define um velho? A idade biológica? Os nossos velhos de 80 anos não chegam aos calcanhares dos velhos de 30 anos do Afeganistão. A idade cronológica? Vivemos numa janela da História em que assistimos ao aumento da idade em que se atinge a anciania. Temos adolescência aos 40 anos, idade em que no Portugal de há 100 anos já se era avô e entrevado e que roça a esperança média de vida de um país riquíssimo como Angola. A idade legal para a reforma ou aposentação? As condições bio-psico-sociais das pessoas que alcançam esta idade permitem que mantenham por mais anos a sua autonomia.

Ou seja, nos egrégios tempos dos critérios macroscópicos, da constatação cognitiva da idade da pessoa, ser velho era óbvio, saltava à vista. Hoje, mesmo alguém atingido por uma senescência precoce já não reúne os critérios da velhice se não tiver a idade legalmente reconhecida para o ser.

Por isso, desculpem-me os eufémicos, os velhos são velhos e como tal devem ser reconhecidos, apreciados, louvados e respeitados. Ser velho devia produzir um reflexo automático de respeito, como que uma descarga eléctrica ou um beliscão a quem, sem fundamento ponderoso, não ceda de imediato o seu lugar em que recinto seja assim que se apresente quer um velho quer alguém com necessidade equivalente e evidente.

Igualmente seria reconfortante que nas casas em que os avós asseguram o auxílio doméstico à família alargada se verificasse o reconhecimento mais amiúde do seu valor e dos seus préstimos e que os jovens fossem sensibilizados a perceberem que o que os velhos fazem por amor deve ser recebido com reconhecimento e gratidão e não com a indiferença de um dado adquirido e tido como certo e seguro.

Perante um velho deveríamos verificar um reflexo automático de respeito e atenção. Claro que podemos dizer que há velhos que não se dão ao respeito. Não sabemos da sua vida que pode superar o que somos capazes de conceber; será uma excepção a que não é legítimo dar estatuto universal e cobrar ao justo o pagamento do pecador. A educação é património de cada um e nós respondemos pela nossa e o velho, se incorrecto, responderá pela dele.

Se já me alonguei nesta conversa também posso afirmar que ainda não roçámos sequer a superfície do tema, mas o que me traz a estas linhas é sensibilizar para um problema recorrente e que tem consequências funestas nas capacidades mentais e cognitivas dos velhos.

Assumirei, por defeito, a inexistência de complicações susceptíveis de interferir na qualidade das relações intergeracionais.

As famílias vivem espartilhadas pela ambiguidade na relação com os velhos. As casas são pequenas para as necessidades actuais e entre uns aparelhos, uns tarecos, uns móveis e o velho, está bem de ver quem está na casa de partida para outros destinos. Além disso, as questões da exiguidade do espaço potenciam a emergência de atritos.

As preocupações decorrentes da insuficiente autonomia do velho, dos riscos que a sua desconcentração pode gerar, o receio do perigo que possa correr, frequentemente ditam as decisões de apartar essa pessoa do lar familiar e de o colocar onde se aspira garantir as melhores condições de cuidados e segurança.

Ambos os cenários, casa familiar e lar de idosos, geram descompensações psicossociais que perturbam o desempenho mental e intelectual do velho.

A coabitação familiar que reflecte uma progressiva perda de estatuto sociofamiliar do velho, que é percebido como uma preocupação, um estorvo ou uma fatalidade, a sua remissão para as áreas menos nobres da casa, a sua sujeição aos ritmos de vida dominantes da casa, a desvalorização da sua opinião, a relativização das suas competências e aptidões, a referência ao desconhecimento e desactualização quanto à vida quotidiana constituem declarações de incompetência e de incapacidade com um carácter vincadamente assassino. Todos conhecemos os efeitos de um bombardeamento constante e erosivo da auto-estima sem sequer estarmos confinados àquela meia dúzia de metros quadrados a que o velho está confinado.

O isolamento social, a falta de contactos, de comunicação, seja sob a forma de conversação, seja sob a forma de uma carícia como dar a mão, um abraço e outras formas de proximidade física e de expressão de afecto é mais uma parcela a somar a outras que contribuem para a implosão do ânimo do velho de sentir que está a mais, que empata.

(…) Continua na próxima edição.

Por: Nuno Gonçalves
“escreve sem o acordo ortográfico”

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