A PACIÊNCIA DOS DEUSES NÃO É ETERNA!

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J. Antunes de Sousa

J. Antunes de Sousa

O mês de Junho, apesar de já ter passado, merece uma palavra especial – é que não passou o que nele se nos coloca de interrogação.

De facto, o mês de Junho parece ser bom mês para se nascer (como é, por exemplo, o meu caso) e obviamente para se fazer anos (embora o que seria realmente interessante é desfazê-los!) – é, em qualquer caso, um mês de auspício, de luz, de calor. Mas é também o mês do meio e a partir do qual os dias começam a minguar. E simboliza algo de invencível: o facto de ao apogeu suceder sempre o início da decadência. Em qualquer caso, já não há Junho como dantes – instabilidade, chuva, tempo plúmbeo e cinzento.

E é neste Junho, decadente e lúgubre, que se celebra, como de costume, o dia de Portugal. Dias nublados estes, como nublado é o horizonte que para Portugal se perfila. E aí está o país inteiro, em gigantesca caravana de êxodo, a caminho do Algarve em demanda de uma nesga de sol!

Contudo e em boa verdade, não é de todo apropriado afirmar que Portugal esteja a atravessar uma crise – Portugal é essencialmente crítico. Nunca se desprendeu de facto da vivência pastosa de uma crise que se nos colou à pele. Habituámo-nos a respirar em dificuldade – como os asmáticos que, às tantas, já dominam uns truques para respirarem, mesmo sem o recurso à “bomba” ou ao inalador.

É por estarmos tão familiarizados com a falta de ar que vamos, certamente, escapar à ambulância e ao serviço de urgências. O estado de crise é-nos tão congénito e tão natural que o mais certo é evitarmos cair no coma em que países, mais inadvertidos, como a Grécia, mergulharam. A Irlanda, por exemplo, que, a certa altura, viveu dificuldades, embora com outra origem, mas, ao fim e ao cabo, parecidas com as nossas, teve o azar de tirar umas férias prolongadas e de se ter desabituado do seu amargor – e, agora, àquela gente torna-se bem mais difícil e doloroso regressar ao «vale de lágrimas» que julgaram ter podido definitivamente esquecer. Portugal, não.

As nossas gentes sempre se pelaram por uma boa sessão de choro, de lamento, de agastada crítica e de censura. Não conseguimos viver sem uma razão forte que nos estornique os miolos, que nos atormente a alma, que nos faça dura a vida – como achamos que é suposto sê-lo. Porque o pouco que julgamos ser não nos permite enxergar que outra coisa, para além disso, possamos ser.

Não é por acaso que o Cabo é para nós o símbolo paradigmático da nossa alma nula, da mente bipolar: tão depressa como vivência dolorosa de um medo que nos tolhe (Cabo das Tormentas) como vivido como radiosa hipótese de glória (Cabo da Boa Esperança). Não nos sentimos bem à bolina no mar-chão da vida – só na aflição do mar encapelado e ameaçador. E isso sabia-o bem Camões que no-lo plasmou, em sina dourada, no canto IV de “Os Lusíadas”, na figura patética do “Velho do Restelo”, essa voz de uma sensatez que é também muito nossa – a voz do pessimismo nacional. Um pessimismo que nos vem da nossa macieza de feitio, da nossa “fragilidade ôntica” (Eduardo Lourenço) e que resulta deste nosso consubstancial auto-apoucamento – esta obsidiante sensação de que é pouco o que valemos.

Daqui um paradoxo: isto mantém-nos baixinhos, resignados e alinhadinhos, ainda que sem rasgo por aí além. Mas é isso também que nos vai mantendo à tona, por entre vendavais e tempestades.

De pouco vale apelar ao aumento da produtividade: produziremos sempre na medida do que julgamos valer – e sabemo-nos valer pouco.

Este o nosso drama, esta a nossa clave existencial: não nos peçam o milagre de sermos grandes. Já nos contentamos com o outro milagre: o de, apesar de pequenos, continuarmos a ser o que sempre parece termos sido. É por isso que Portugal sempre encontrou, ao longo da sua história, fórmulas mais ou menos exóticas, quase sempre miraculosas, de sobrevivência (em 1385, em 1640, em 1804, em 1890 e em 1975, por exemplo) – por estar tão apegado a esta sua maneira frágil e gostosa de ser. Tanto que só no limite despertamos da letargia sedosa e nos empertigamos perante o perigo de deixarmos de ser.

Este nosso apego ao sofrimento torna-nos, paradoxalmente, mais fortes que outros, quando esse sofrimento toca a todos.

Há, porém, um limiar mínimo de sobrevivência – esse mesmo, o da autenticidade, mesmo que ao som do fado. Para lá deste limiar, a indiferenciação, a morte. Mas «quousque tandem?» Sim, até quando?

Aliás, a História atesta-o com clareza: temos sido bons a desafiar o destino, mas, atenção, que os deuses podem achar que já é de mais – não convém abusar.

Por: José Antunes de Sousa
“escreve sem acordo ortográfico”

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