Alerta Vermelho

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Estava aqui às voltas a tentar descobrir como encontrar uma ponta para começar este texto, ainda sem uma ideia feita do que vou escrever e lembrei-me de uma entrevista que li há pouco, tendo como mote o último filme de Lars Von Trier, “Ninfomaníaca”, um realizador de que gosto muito, até pela sua densidade, ousadia e respeito sobre os temas que muitas vezes aborda. A entrevista foi feita à Charlotte Gainsbourg, que interpreta a protagonista, mas para além dela, são registadas declarações de uma outra artista, Stacy Martin, que interpreta a mesma figura enquanto mais nova e descreve que Von Lars utilizou uma artista da indústria porno para fazer as cenas mais ousadas. No entanto, Von Lars terá logo informado Stacy Martin que ela iria ter um duplo porno e que iria usar uma vagina prostética. Questionado sobre o que era esta vagina prostética, o realizador esclareceu-a que era “um adereço complexo, que passaria por várias fazes e demoraria três horas a aplicar em cima da sua própria vagina. Teria de encaixar perfeitamente na sua própria vagina e evitaria qualquer sensibilidade por parte desta”. Acrescentava a artista que, embora achasse estranha a naturalidade com que agora abordava a situação, para Von Lars era essencial a importância da honestidade de tudo e, agora deduzo eu, a preservação possível de toda a intimidade e dignidade de quem iria interpretar papel tão difícil.

Perguntar-me-ão agora o que tudo isto tem a ver com o que decidi hoje abordar neste artigo. Pois tem e logo se verá adiante. Questionar-se-ão igualmente sobre o significado deste alerta vermelho, numa altura em que esta classificação tem sido regularmente usada pelos serviços meteorológicos, para designar um grau elevado de perigosidade aliado às duras condições climatérica de que temos sido alvo. Pois, tem tudo a ver e só não tem para quem não tiver a capacidade de associar factos e situações, mesmo que transportados para contextos e ambientes completamente diferentes.

Pese embora uma aparente e enganadora acalmia política que agora tem sido aproveitada pelo nosso “querido líder” Passos Coelho e sua trupe malabarista, para nos presentear com um menu riquíssimo em índices, indícios, sinais e outras ilusões de melhoria de tudo e de nada na nossa vida, só os mais distraídos ou os que sofrem duma credulidade sem limites, poderão embarcar em tão balofa como perversa bonança. Toda esta matemática da felicidade são apenas números, como eu, aliás, já tive oportunidade de abordar e concluir que números e pessoas, nas circunstâncias presentes, raramente são sinónimo de bons sinais. Os números, uma articulação intencional da realidade racional, só muito excepcionalmente casam com a felicidade das pessoas, porque estas não se alimentam de números, nem os seus índices ou percepção da felicidade são mensuráveis por esta via. Os números são importantes, claro, até porque a matemática, que domina uma quase infinidade de leis e conceitos que regem a nossa vida, se baseia na sua linguagem para estabelecer regras e justificar verdades indesmentíveis, mas a montante dos números deve existir todo um universo de sensibilidade humana e de consciência social. Ora, nos novos conceitos de governação e de utilização da economia, passou a existir um premeditado divórcio entre estas duas componentes, a racionalidade dos números e a condição humana das pessoas, pelo simples facto de haver uma diferença indisfarçável entre seres humanos e coisas.

Por mais sinais positivos que se possam vislumbrar ou inventar, nada é mais certo do que a prossecução de políticas que relegam para o campo de variáveis matemáticas, as pessoas que deveriam ser o cerne da questão. Se se atentar bem naquilo que de mudança, se deu no nosso país desde que este governo tomou posse, será fácil deduzir que quase tudo piorou. Os credores, os mercados, os mentores, os tutores, todos, enfim, aqueles que se preocupam muito em moldar o mundo à imagem da suas exclusivas ambições, preocuparam-se em mudar coisas importantes das nossas vidas, que implicitamente as pioraram, para que coisas importantes das vidas deles corressem definitiva e intencionalmente melhor. É um malfazejo princípio dos vasos comunicantes, usado e imposto para que a diminuição dos nossos direitos e o preço do nosso trabalho compense e premeie, numa perspectiva de lucro unidireccional, os seus proventos e a sua qualidade de vida, com menores gastos e cada vez mais autoridade e controlo sobre o tecido trabalhador, privilegiando os que dominam aquilo a que ainda chamam economia, mas que muito basicamente se resume a um descarado esbulho dos mais fracos.

As leis do trabalho foram impostas e algumas vezes vergonhosamente negociadas, com o simples intuito de baixar o preço do trabalho e melhor dominar o universo de quem tem de trabalhar para viver. Os vencimentos e as pensões são continuamente reduzidos. Os serviços públicos esvaziados do seu verdadeiro significado e importância e muitas vezes, pura e simplesmente negados, ou então vendidos aos contribuintes, para além dos impostos que lhes são cobrados. A saúde, pese embora algum carácter positivo que se pode encontrar em quem a tutela mas que não chega para verdadeiramente fazer a diferença na mancha disforme que é o governo no seu todo, depaupera-se e, se bem que não se possa julgar a floresta por cada árvore apodrecida, não param de surgir casos escandalosos que têm essencialmente a ver com cortes cegos e criminosos numa área onde, precisamente se lida com a vida e a morte, a educação e a investigação científica é tratada como um mero negócio de mercearia, a cultura é tratada como um assunto menor e de somenos importância, reduzida precisamente àquilo que gente inculta pensa da arte e do pensamento, da música, do teatro, do cinema, da pintura, e de todas as formas de actividades artísticas e culturais que não cabem naquelas cabecinhas cheias de nada que ocupa o lugar das ideias, apenas a economia e o dinheiro, nas suas formas mais vis e abjectas povoam o emaranhado daqueles neurónios que se julgam superiores e nada mais são do que palha neurológica que lhes sobrou dos anos em que andaram pretensamente a estudar para políticos.

O povo, as pessoas, aquela mole humana de gente ingrata, intolerável e embirrante que grita nas manifestações e nos actos solitários e desesperados ou mesmo aquela outra que se resigna ao silêncio da sua pobreza envergonhada e que já nem reage porque lhe falta a esperança e a coragem, essas não contam para nada, não fazem parte das suas preocupações, não entram nos tais sinais de melhoria que se fossem verdade até assustariam as estatísticas mais bondosas e é aí que entra a semelhança à tal vagina prostética, porque Passos Coelho e toda a sua corte, têm mentes ou almas prostéticas, consoante a consciência seja um conceito racional ou virtual. Confesso que ainda não descobri em qual dessas zonas poderá residir tal capacidade de nos sensibilizarmos com os humanos e os seus dramas e necessidades, mas de certeza que estarão também cobertos por esse tipo de próteses que os inibem de sentir seja o que for que os possa emocionar e ter consciência dos dramas alheios, para além dos seus egos alimentados por uma multidão de números e de certezas.

Por tudo isto, o alerta vermelho que trouxe à colação logo no início. O alerta vermelho está lançado, porque nada vai melhorar nos próximos anos. Não há índices nenhuns capazes de sarar as feridas que foram abertas com esta lepra que nos caiu em cima, depois duma maioria crédula e ingénua ter votado nestes monstros e acreditado que eles trariam a cura e a salvação. Tudo continuará a degradar-se, pois o desmoronamento das bases de um país não é curável apenas com boas intenções. As feridas são profundas e estão infectadas. Se não for por vontade expressa, férrea e indiscutível de todos nós, continuaremos a caminhar para o maior retrocesso civilizacional e social de que poderá haver memória, se esta ainda subsistir ao pus das chagas que nos foram impostas…

O alerta vermelho é cada vez mais intenso e urgente de ser atendível pela consciência social de cada um e pela coragem e discernimento de todos, num movimento de resposta unânime contra este despotismo duma pretensa democracia e duma maioria absolutamente corrompida pela evidência dos factos.

Por: Ernani Balsa
“escreve sem o acordo ortográfico”

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