DEPRESSÃO E OUTRAS VIROSES

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A depressão é, no presente, uma espécie de constante universal, uma qualquer e banal K.

Nuno Gonçalves

Nuno Gonçalves

Vejamos. Nos anos 80 o paradigma universal por defeito e excelência era o psicanalítico. Em qualquer roda de amigos se travavam e prolongavam intermináveis debates sobre qual seria o trauma ou indissociável queda do escadote que estariam na origem de um determinado tique, postura ou bocejo de enfado.

A norma era o trauma, a desculpabilização desimplicante em que se atribuía a responsabilidade de qualquer problema, incapacidade ou indisponibilidade aos outros, de preferência aos progenitores, que se questionavam quanto às culpas e falhas que, mesmo desconhecidas ou inexistentes, lhes eram imputáveis vivendo numa culpa ignorante incapaz de reparar os estragos e consequente estropiamento da descendência.

O mal eram os outros e o outro, pelos vistos, excluía o próprio.

Havia uma norma, um padrão. O mundo estava ordenado. Existia uma abstracção universal que dava sentido ao Cosmos. A massa podia quedar-se tranquila.

A depressão, à época, era uma coisa rara, quase uma doença inominável, uma fatalidade, uma coisinha má de que se falava em suspiros sussurrados ao pé de orelha e com trejeitos de uma desgraça insanável.

Nessa época ainda existia a tristeza, a melancolia, os dias que não davam alegria mas que também não traziam a necessidade de uma euforia de anúncio comercial, sofriam-se e purgavam-se os lutos, as saudades grassavam, lutava-se com a frustração, dominavam-se os impulsos e não havia prestações que prolongassem a agonia dos prazeres e posses instantâneos.

Tinha-se o que se conquistava e, curiosamente, isso estruturava ambições, projectos de vida, sonhos e a capacidade de construir e de conseguir.

Aceitava-se como normal que se lutasse por algo que se desejava. As famílias temperavam o carácter dos seus rebentos graduando os presentes e os prémios, sem inundações de prebendas e compensações contra-traumáticas.

Os dias eram enfadonhos e entediantes e aprendia-se a pensar, a reflectir, a descobrir sentido para as coisas. Ora se lia, se olhava pela janela, se inventavam mil e uma estratégias para sobreviver ao lento rolo compressor das horas. Não havia alternativa. Tínhamos mesmo de aprender sozinhos a superar a vacuidade que bastas vezes nos assaltava.

A leitura, a escrita, a conversa e a partilha de reflexões, experiências, dos mais variados saberes ajudavam a viver o tempo, a aprender a esperar, a calcular morosidades e a perceber que o que não é presente nem imediato será real a seu tempo.

A vida em comunidade e a inexistência do politicamente correcto, (a grande moda da altura era ser educado) ensinava as pessoas a terem consideração genuína pelas outras, a pensarem pela sua cabeça respeitando a cabeça alheia, a terem a noção da sensibilidade interpessoal e, espante-se, a serem capazes de reconhecer os sentimentos do próximo, percebendo-os e aceitando a diversidade das personalidades. A moda na altura era a moralidade. Não se pode ter tudo.

Sinceramente, quando penso no presente, aflui-me à mente uma tal torrente jactante de imagens, de discurso e de situações que me sinto como que assolado pela agitação maníaca com fuga de ideias e verborreia.

O volume é tal e tão rápido que é como se na minha mente explodisse um imenso bando de estorninhos do qual é impossível isolar e destacar um único.

Hoje vivemos do instantâneo e da obsolescência do imediato. A espera gera um angor opressivo e asfixiante. A satisfação tem de ocorrer subitamente, como se a realidade fosse produto de uma qualquer varinha mágica.

Vivemos um mundo de desenhos animados em que tudo se sucede numa cascata alucinante e compacta, sem pausas nem espaços mortos. A música exclui os silêncios. A Natureza tem horror ao vazio. A Pessoa tem horror à espera, ao deferimento. Tudo o que obste a uma satisfação à velocidade do impulso gera revolta, ira, sentimentos de intolerância.

A realidade vive-se ao ritmo e intensidade de uma perseguição cinéfila e hollywoodesca.

Eis-me de novo num momento de charneira. O que tem isto tudo a ver com a depressão?

Depende. Pode ter tudo ou não ter nada. Deixo ao seu critério o sentido e a conclusão.

Assisto aos resultados de uma sociedade pasteurizada em que as crianças são privadas de esclarecerem entre elas o valor de um murro, de um estalo, de um empurrão. Em que um pacifismo extremo e nada pedagógico procura contrariar as tendências de um predador de topo da cadeia alimentar proibindo brincadeiras com armas falsas que são de imediato substituídas por armas inventadas.

A repressão da agressividade interfere no processo de aquisição de competências sociais com a perversidade de muitas crianças assistidas pela ama electrónica depararem, numa idade em que o pensamento mágico prepondera, com o cadáver do filme anterior a passear sem um arranhão numa qualquer outra fita. Parece exagero mas quem se lembra dos acontecimentos que ocorreram há cerca de 18 anos, com curtos intervalos de tempo, tem presente o infanticídio perpetrado por crianças em Inglaterra, e as mortes incompreendidas pelos companheiros de brincadeira ocorridas num país nórdico e em Portugal, para os lados da Buraca.

Há aprendizagens que devem ocorrer no desenvolvimento e são basilares para no futuro se lidar com situações exigentes e com o sofrimento geram. A sua ausência é susceptível de facilitar a emergência do capricho, da frustração, da dor, da dificuldade em perceber os sentimentos e as perturbações que o afectam e as razões, se as houver, levam-no a enfrentar estados emocionais para os quais não desenvolveu estratégias de protecção e de resolução.

As emoções são indestrinçáveis das Pessoas. Há que vivê-las, lê-las, descodificá-las, aceitar que nenhum de nós, saudável, está inibido de as experimentar e viver.

Vivemos numa época de recurso às classificações genéricas e englobantes. Dos diagnósticos instantâneos e a seco. Não se percebe bem que infecção afecta o doente mas a resposta é imediata: é uma virose. Aquela criança, a transbordar saúde, que vive como um sem-abrigo, dos limites do quarto, para os limites da sala, de seguida para os limites do elevador, desaguando nos limites da garagem, que a conduz aos limites do SUV, que a transportará para os limites do estabelecimento que a acolhe até se sujeitar ao trajecto inverso e de retorno, castrada na sua necessidade de espaço e liberdade de movimentos e que se torna, “et pour cause”, agitada e inquieta, tem o diagnóstico marcado: é hiperactiva e é tratada em conformidade. O velho (desculpem o vocabulário, mas cada vez mais me convenço que as metáforas são formas insidiosas e cobardes de despersonalização, de exclusão e estigmatização) que passa os dias no mais completo isolamento social, que é diminuído na sua autoridade, autonomia e independência, ferido no amor-próprio, que perde a reactividade por implosão defensiva tem o diagnóstico lesto: senilidade.

Não nos questionamos quanto à justeza e adequabilidade das adjectivações. Tem rótulo, tem classe, está arrumado e a ordem regressa ao mundo. Podemos regressar às nossas rotinas pois já podemos aplicar um padrão a uma realidade que até aí era angustiantemente caótica.

A pessoa encontra-se num estado de disforia, de fadiga, de sensibilidade emocional, não há hesitação nem apelo: DEPRESSÃO!!!

Eis-me chegado ao cais. A depressão é a virose das afecções mentais.

Criou-se uma convicção que determina que o estado natural da Pessoa é de apatia afectiva e emocional tão determinante, (num permanente sorriso botox e expressão eufórica), que qualquer manifestação de humanidade é de imediato entendida como manifestação de desequilíbrio psicológico.

Os avisos reiterados da OMS (Organização Mundial de Saúde, organismo da ONU para a saúde) quanto à progressão da epidemia silenciosa que é a depressão normalizaram, (lembram-se da psicanálise selvagem dos anos 80/90 do século passado e dos consequentes diagnósticos de traumas?) o impulso diagnóstico e eis que de supetão uma Pessoa recebe esse veredicto devastador e demolidor: TEM UMA DEPRESSÃO.

Ora acontece que, tal como a dor de cabeça é um sintoma comum a uma diversidade de padecimentos, os sentimentos, as inseguranças, as diversas manifestações de VIDA MENTAL, que se expressam sob a forma de disforia, tristeza, desânimo, aflição, angústia, enfim toda a paleta de vivências afectivas e emocionais que se caracterizam por um humor de tonalidade escura são muito convenientemente designados e diagnosticados como Depressão.

Este imediatismo surge-me desadequado sem que se esclareça e se pesquise o valor clínico das queixas e vivências psicológicas.

A Vida é um campo de incertezas e é essa ausência de estabilidade que revela a nossa maior força como ser vivo, o sermos imensamente adaptáveis e flexíveis.

Circunstâncias excepcionais geram afectos excepcionais.

A frequência dos diagnósticos de depressão propicia a convicção das pessoas que presentes à sessão clínica se identificam como: “Estou deprimido; Tenho uma depressão; Apanhei/Foi-me diagnosticada uma depressão”.

Na incerteza, no receio, no desconhecimento do que subjaz ao sofrimento psicológico que a Pessoa vive, é “reconfortante” saber que há uma razão e que está identificada.

Por defeito, o diagnóstico de depressão, dada a gravidade que a sua evolução pode ganhar na ausência de intervenção clínica, é prudente. Acontece amiúde que estes diagnósticos são aplicados a situações que geram alterações de humor, labilidade afectiva e expressividade emocional exacerbada e que, tal como a já referida dor de cabeça, com a depressão apenas têm em comum alguns sinais e sintomas.

Situações de vida, agudas, como o são as perdas sob a forma de luto, desemprego, alterações de vivência familiar por casamento, termo de relações, saída de filhos, internamento de familiar; ressentimentos contidos; relacionamentos forçados; reflexão sobre a própria vida; eminência ou vivência de momentos de mudança de vida e/ou processos de decisão; dúvidas existenciais; mudança de profissão/emprego; exames escolares ou médicos; entrada no mercado de trabalho; gravidez, são susceptíveis de gerar circunstâncias exigentes e desconhecidas que colocam a Pessoa em situações de grande tensão, medo, tristeza, raiva, prostração, revolta, agitação, labilidade emocional. Não obstante é igualmente admissível todas estas manifestações estarem em conformidade com as circunstâncias da Pessoa.

O diagnóstico de depressão será tão mais seguro quanto mais atenta e minuciosa for a pesquisa das circunstâncias de vida e do momento actual da Pessoa. Tenhamos presente que o doente a quem é comunicado ter uma depressão é confrontado com uma doença sem marcas, que ele próprio tem dificuldade em compreender e aceitar e que o leva a uma situação de solidão pois os que lhe são próximos não vêem a doença e os seus esforços para animar o deprimido geram ainda mais perturbação e sofrimento.

Se o peso do diagnóstico de depressão tem um elevado impacto no doente confrontando-o com uma doença invisível mas que lhe é superior por outro lado ganha o consolo de cumprir um esquema terapêutico que o alivia e traz esperança.

O diagnóstico correcto acautela a patologização de estados de humor decorrentes de circunstâncias específicas. Certamente que um estudante que estudou 3 meses, com sacrifício das férias ,que reage com uma gargalhada de felicidade quando verifica ter sido reprovado aparenta um comportamento perturbado.

Sentimos conforme o que a vida nos traz e de acordo com os recursos pessoais e a experiência que possamos ter adquirido ao longo da vida.

Não deixa de surpreender a reacção de algumas Pessoas presentes na consulta por via de um diagnóstico de depressão quando confrontadas com outro diagnóstico, aos olhos delas mais favorável ou mesmo sem implicações psicopatológicas. Num primeiro momento, uma reacção de contrariedade que pode ser até muito intensa pois o diagnóstico tem um valor de identidade mas imediatamente após surge um sentimento de alívio e um processo de reflexão concentrado. A Pessoa pode precisar de um rótulo mas é frequente a sensação de estranheza se não lhe consegue encontrar um sentido ou uma correspondência. E convenhamos que a depressão corresponde a um estado muito penoso e gerador de profundo sofrimento.

Sou da opinião que antes de um diagnóstico há que perceber a Pessoa, saber das suas circunstâncias e recursos. Sermos mentalmente saudáveis implica que vivamos perturbações psicológicas quando somos expostos a circunstâncias extraordinárias. Mais que proceder a uma síntese diagnóstica compete ao psicólogo perceber as circunstâncias e as vivências e como se reflectem na Pessoa.

Devemos manter a atenção a nós próprios e reagir se nos apercebemos que o extraordinário permanece imutável e/ou prolongando a perturbação.

Sofrimento psicológico não corresponde directamente a perturbação psicológica. Este tipo raciocínio silogístico levar-nos-ia a ter de concluir que a qualquer emoção corresponderia uma perturbação mental, mesmo que a emoção fosse a alegria ou a compaixão.

Por: Nuno Gonçalves
“escreve sem o acordo ortográfico”

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