A ENGANADORA DIMENSÃO DO TEMPO…*

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Ernani Balsa

Ernani Balsa

Ainda ontem era ontem e hoje já é antes de ontem. O tempo parece andar para trás. O mais parecido com o tempo que hoje vivemos, é um poço da morte, daqueles das feiras, quando havia feiras, em que a mota que circulava lá em baixo tinha um percurso que se repetia vezes sem conta, com altos e baixos, pré anúncios de quase despistes, que depois o motociclista corrigia com destreza, mas não sem algum dramatismo sempre emocionante. A maior diferença hoje em dia, é como digo, que o tempo não só se repete, como ao mesmo tempo anda para trás, fazendo-nos viver num registo de déjá-vu, por mais sinais positivos que sejam anunciados e por relógios do tempo que se ponham a contar o que nos separa do fim, quando tudo nos afasta dessa miragem.

O melhor mesmo é não pensarmos em adiantado, porque o tempo, muito provavelmente não chegará a qualquer destino dentro do nosso tempo estimado de vida. Ficaremos sempre a meio do tempo, com as vidas por realizar e o futuro por resolver. Teremos sempre menos tempo de vida do que aquele que o tempo levará a reencontrar-se com o relógio do universo.

Cada vez menos sinto vontade em pormenorizar as razões da minha inquietude e revolta para com aquilo que os responsáveis políticos e outros, nos têm vindo a deixar como legado da sua condenável conduta. Já não é só a inépcia e a incapacidade de liderar, agora é mesmo mais uma deliberada vontade de criar bolhas e mais bolhas de descontentamento e pobreza, é uma aturada determinação em baixar o nível de vida da população, poupando a essa condenação apenas aqueles que se inscrevem no seu círculo de interesses e os que, numa esfera mais alta, estão protegidos pelos hediondos e lúgubres meandros do poder financeiro e especulativo internacional. Hoje, a esse nível etéreo e místico dos adoradores do dinheiro e do poder, a quem até já o papa não tem qualquer relutância ou receio de acusar de viva voz, como sendo os causadores de toda a miséria a nível mundial, a esse nível de uma pouca vergonha cínica e assumida perante o mundo, ninguém vence ou escapa sem a intervenção dos mais variados grupos de influência da finança internacional e também de conhecidos sectores de uma certa maçonaria que acha ter o direito de determinar aquilo que a sociedade precisa ou não, assumindo cada vez mais um papel relevante com obscuros mecanismos de repartição do poder pelo espaço social, sem se preocupar minimamente com o bem estar de uma maioria constituída pelos trabalhadores, aqueles que verdadeiramente dão um contributo indispensável àquilo que deveria ser o rumo eticamente exigido à economia.

A grande maioria da população irá manter-se durante anos demais numa subsistência constante, enganada pela miragem do sucesso e do progresso com que lhes venderam a miséria que hoje vivem. E ainda terão de a pagar com juros, por muitos anos e com o sofrimento de velhos e jovens, que uns não cumpriram os sonhos que tinham erguido e os outros já nem os sonhos os deixaram sonhar. O que teremos serão gerações de homens e mulheres incapacitados de viver em pleno, mutilados na sua dignidade e ludibriados com uma liberdade que para quase nada lhes serve. Será uma vida virtual, apenas com a realidade das dificuldades e do esforço que terão de aguentar. À distância dos paraísos fiscais e das ultrajantes opulências da classe dominante, poderão vislumbrar o espectáculo colorido da vida como ela poderia ter sido, mas não lhe sentirão, nem os cheiros, nem os sabores das iguarias e muito menos os prazeres apenas permitidos pelo dinheiro que circula e que tem origem na miséria que eles encarnam.

Daqui a trinta, quarenta ou cinquenta anos, quando aqueles que ainda existirem desta geração actual olharem para trás, nada recordarão, porque nem disso terão necessidade, basta-lhes olhar o presente deles para saberem como viviam os seus pais e os seus avós. Sentir-se-ão até confundidos com algumas descrições, talvez escritas, dos pequenos prazeres a que uma grande maioria da população de então tinha acesso e que no presente deles talvez não façam já qualquer sentido. É por isso que a dimensão do tempo será um factor enganador. O tempo deixou de ser medido em unidades do tempo para passar a ser medido em unidades de vida e morte, apenas, sem dimensão temporal, porque nada será previsível.

Previsível, será tão só a decadência de uma sociedade que durante décadas e décadas acreditou que o seu suor seria um indiscutível contributo para o progresso e que esse progresso seria progressivamente extensível a um conjunto cada vez maior de franjas desprotegidas dessa sociedade e que afinal se depara agora com um retrocesso criminoso e despudorado que lhes imputa uma culpabilidade que não lhes cabe nem justifica.

Esta enganadora dimensão do tempo aliada um sentido vergonhoso de cobiça arrastou e arrastará durante muitos anos ainda tudo aquilo que constituiu um projecto de vida que corresponde à existência de grande parte daqueles que ainda hoje resistem a uma morte prematura, mas que, medida após medida, vão soçobrando a uma genocídio da esperança e de um fim de vida digno e merecido.

O tempo vai regredir cada vez mais para permitir a abundância desmedida de uns quantos que crescem numa proporcionalidade criminosa, relativamente aos pobres que se multiplicam todos os dias, apagando qualquer expectativa de uma maior proximidade social entre os extremos.

* Qualquer semelhança deste texto com a realidade presente e futura, poderá ser apenas uma fatídica coincidência, mas mais vale prever do que resignar…

Por: Ernani Balsa
“escreve sem o acordo ortográfico”

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