“MASSA À BOLONHESA”

412
J. Antunes de Sousa

J. Antunes de Sousa

Anda para aí tudo, outra vez, numa roda-viva – professores, alunos, pais, ministros, ministério, universidades. E, bem vistas as coisas, tudo por causa de Bolonha. Que é preciso acertar o passo com o futuro – uma aposta na ciência e tecnologia, na mobilidade e na empregabilidade.

Mas que é isso de Bolonha, afinal? Claro que pretende ser muita coisa, mas o que é, no fundo, é uma metáfora da própria Europa. Os seus governantes, observando a caldeirada que tudo isto é, acharam que essa variedade estava a entravar a marcha triunfal de uma Europa que não havia meio de conseguir meter o pé direito na carruagem da História. E, então, que fizeram eles, reunidos à mesa na capital europeia da massa (spaghetti)? O que sempre fazem nestas circunstâncias: lançaram um olhar augado e deslumbrado para o país do ketchup, que leva o nome de Heinz, mas que, ironicamente, é hoje propriedade de uma portuguesa, Teresa, de seu nome, e acordaram em que o que era preciso era mesmo uma receita simples, pronta a servir e que desse algum sabor às coisas – e aí o segredo da sua popularidade, que é isso o que verdadeiramente interessa.

Decretaram, então, que a “massa à bolonhesa” é que é bom – não apenas para os italianos, mas para todos os europeus, mesmo para aqueles que preferem “paella” ou sardinhas assadas. E massa porquê? Porque massifica: nunca houve, como agora, tantos a saber tão pouco. E nunca houve tantos que, sabendo tão pouco, julgassem saber tanto, o que é o máximo da massificação da estupidez – tantos que não reconhecem que armar ao sabichão constitui a mais supina manifestação de ignorância. Sim, porque o que Bolonha traz no ventre é a consagração da mediocridade, coisa, em qualquer caso, irrelevante, desde que, com ela, as estatísticas da frequência do ensino superior e do emprego no espaço europeu estabilizem num patamar aceitável.

Bem vistas as coisas, tudo se resume à pragmática lógica da salsicha: entra-se numa ponta do tubo como massa informe e sai-se, na outra, ao fim, como massa formada (ou formatada?) – e com selo de qualidade e tudo, como convém neste mercado globalizado. O ketchup americano inspirou a massa de Bolonha, que passou a servir-se empacotada à vasta clientela europeia que, pressurosa, acorreu, em festa, ao engodo publicitário – alguns, mais espertos, carregando um lustroso saco de créditos!

Mas, olhem, que nós, portugueses, de Bolonha já tivemos a nossa conta, uma dose de desgraça que, por pouco, não nos fazia enjoar o destino – o nosso “Bolonhês” que tivemos que retirar à pressa do “tacho” em que imprevidentemente o metêramos. Esta história, aliás, todos os nossos miúdos do 4º ano a conhecem.

Num tom mais sério, que é mesmo séria a coisa: os povos não medram aplicando-se-lhes a medida da rasoira, dando-se-lhes a papa à mão, mas permitindo-se-lhes ar e espaço para poderem criar.

Que tudo isto é para favorecer a circulação de competências – dizem-nos. Bela intenção, sem dúvida, desde que fossem reais essas competências. Mas, admitindo que sim, por que razão teremos que circular todos na mesma estrada? É uma circulação pretensiosa, além do perigo óbvio de engarrafamento: todos, à viva força, a circular de “Mercedes”. Mas tenho para mim que o que seria realmente bom é que cada um pudesse escolher, além da estrada, o seu meio de transporte – uns de “Porshe” outros de burro, que é a diversidade que une e a criatividade que enriquece. Cada um ao seu jeito e pelos seus atalhos.

Que esta “massa à bolonhesa”, feita com base na receita do ketchup ainda se nos vai tornar perigosamente indigesta, disso ninguém duvide, como o denota o ar de enjoo do ministro Relvas. E oxalá que, nesse vómito provocado pelo tédio letal da indiferenciação, não nos vá, agarrada, a própria alma – a língua e a cultura. Isto é realmente uma ma(ç)ada!

Pelo sim e pelo não, eu, cá por mim, continuo a preferir um bom “cozido á portuguesa”.

Por: José Antunes de Sousa
“escreve sem acordo ortográfico”

Partilhe:



One thought on ““MASSA À BOLONHESA”

  1. Pedro Guedes de Carvalho

    Caro Amigo Antunes de Sousa

    De facto a Bolonhesa não é mesmo o meu prato preferido. Mas repare: o povo queixava-se que só estudavam os filhos dos ricos. Era preciso dar resposta a este pedido verdadeiramente democrático. Todos vão poder estudar mas como não há dinheiro para todos cortam-se dois anitos à festarola de meia dúzia, exigem-se apenas 3 a todos, eles pensam que por andar na universidade podem ser apelidados de doutores e os outros que efectivamente têm valor e querer seguem para mestres e por aí fora.

    O problema foi que não avisaram quem estava nos lugares de docência que deveriam continuar a exigir que todos soubessem. Pensou-se que era como nas escolinhas de 2º e 3º ciclos onde reprovar tem que ser justificado, não pelo aluno que não trabalha mas pelo professor, que não soube adaptar o ensino.

    Aos professores universitários era-lhes veiculado que o seu salário passava a depender do nº de alunos que têm. Ora bolas, então deixei de ser um servidor de Estado para passar a ser um servilista deste Estado…de coisas a que o país chegou.

    Pode acreditar meu amigo numa coisa. Quem era bom professor, no sentido que sempre me ensinaram os mais antigos entre os quais o meu pai, sempre procurou estar a par do conhecimento, estudar e preparar formas de fazer com que outros aprendessem muito e os ultrapassassem até e continua hoje a pugnar por isso.

    Mas há uma coisa chamada de mercado que um tal Adam Smith uma vez explicou que efectivamente funciona na sua base. Ou seja, quando a sociedade não precisar mais de engenheiros civis, eles começam a sobrar; quando deixar de precisar de médicos (destes que até agora têm formado) eles começam a não ter consultórios e os hospitais a deixar de os contratar.

    Depois criam-se outros mercados paralelos, mais acima, mais ao lado, mais legais, menos éticos e assim por diante de forma que todos vão encontrar o seu espaço e, no final de contas, todos podem ser tratados como…”doutores”; não se sabe bem é de quê?

    Recorda-me o trato dos nossos irmãos brasileiros que tratam todas as pessoas vestidas com um fato (sim fato e não facto) de “sinhô dôtô”.

    Mas meu caro amigo, a vida vai ser como dantes. Os mais abastados vão continuar a existir, só que mudaram de características. Antigamente ainda teriam sentido de ética e uma base cultural e agora cortam “relvas” ou citam “sócrates” para se mostrarem importantes. Mas eles andam por aí na mesma, a comer os papalvos.

    Assim em jeito de súmula deixaria que o que mais lamento na minha geração, é não ter visto bem isto e deixado de exigir muito, a ricos e a pobres, como sempre fui habituado a fazer e me fizeram. Habituado a exigir muito respeito, trabalho, ética, perseverança, disciplina, repetições, memória e outras coisas mais. Afinal como aprendem hoje os jovens? Quantas horas se julga que trabalham Ronaldos e &Cª? E quantas horas de dedilhar cordas e teclados têm os músicos? E folhas de escrita rasgadas de grandes escritores? E telas de pintores?

    No fundo nada mudou meu caro amigo. Vai singrar quem seguir esses métodos depois de ter tido a sorte de alguém lhe ter proporcionado conhecer-se o suficiente para perceber que poderia ter algum talento (por exemplo, um bom professor).

    Um grande abraço

    Pedro Guedes de Carvalho

    Reply

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*


CAPTCHA Image

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

O site 'ipressJournal' utiliza cookies para melhorar a experiência de navegação do visitante. LER MAIS

The cookie settings on this website are set to "allow cookies" to give you the best browsing experience possible. If you continue to use this website without changing your cookie settings or you click "Accept" below then you are consenting to this.

Close