O CAUTELEIRO DO CHIADO

396

Só há Estado forte quando fortes são os valores em que se alicerça. E os valores que mais condizem com essa condição de Estado (do verbo latino sto, stare, steti, statum: estar firme e de pé, sem recuar) são a estabilidade, a verticalidade, a solidez, a coerência – para que possa ser confiável e respeitável na percepção que dele tem o cidadão. É, como se sabe, na fidelidade firme aos desígnios de devoção ao Bem Comum que os Estados encontram a sua legitimação ético-constitutiva.

Ora, é essa aura de reverência e respeitabilidade que o nosso Estado – nosso não por que nele nos revejamos, mas porque, infelizmente, não temos outro – tem vindo a perder dramática e irreversivelmente. O cidadão não vê nele uma pessoa de bem, mas antes um inimigo que há que iludir e enfrentar pelos meios mais ladinos que a nossa imaginação, fértil como a de poucos outros povos, vai congeminando.

O nosso Estado, servido por supostas elites, mirradas pela pusilanimidade e pela astenia, quase sempre afectadas por congénita e crónica miopia, resvalou para a irrelevância simbólica e social: todos o têm em péssimo conceito – ninguém o respeita porque, em boa verdade, é ele próprio que se não dá ao respeito. Dando mostras de uma alvar e covarde rapacidade – a eito, desde que sejam dos fracos as presas-, este nosso Estado está sempre no encalço do indefeso cidadão para, ao dobrar de cada esquina, lhe apontar a pistola e sacar a carteira.

Mas, cansados de tanta desfaçatez, os cidadãos armam-se da sua proverbial manha, essa doce ronha que, desde os primórdios da nacionalidade, nos ajudou a familiarizar-nos com o milagre da sobrevivência: O estado quer garrotar-nos com impostos que nos deixam sem fôlego e sem cheta? Vamos então fazer o que, com tal excesso de usura, o Estado está, afinal, à espera e a merecer que façamos: fugir e iludir a polícia fiscal o mais que possamos. E, assim, medra a economia paralela, a que engorda sem a tutela vampiresca do Estado. Resultado: O Estado, na sua avidez de tudo taxar em alta, vê fugir-lhe cerca de 30% da receita fiscal que lhe caberia se o país não fosse este e se não fossemos um povo que se pela por uma escapadela – seja de que tipo for!
Mas sabendo os governantes que é de inveja que sobretudo se nos faz a motivação, eis que inventaram um expediente que é, afinal, a réplica em grande da pequena quermesse que, na minha aldeia, os mordomos da festa da santa padroeira faziam, e creio que ainda fazem, para arranjar uns tostões para as despesas da capela.

Ou, quem se não lembra daquela camioneta de caixa aberta exibindo, em lento e insistente desfile por esse país fora, um automóvel Toyota, novinho em folha, e cujo condutor, de megafone, anunciava o sorteio dos inválidos do comércio, enquanto uns dedicados voluntários assediavam os transeuntes, acenando-lhes com a rifa que lhes poderia dar tão chorudo e luzidio prémio? Ou o sorteio dos ceguinhos de S. João de Deus…

Inválidos e ceguinhos, eis o que, maldosamente, acreditam os governantes que sejamos – por isso nos estão a tentar levar e adormecer com a história da rifa.

Depois de terem feito da Repartição de Finanças a casa da nossa desgraça, querem, agora, fazer-nos crer que esta se pode subitamente tornar a “casa da sorte” daqueles a quem tão metodicamente expoliaram: É preciso ter topete!

Este é, meus amigos, o país da quermesse nacional: tiram-nos a sopa, que é o essencial, e montam um arraial com uma roda da sorte para nos embebedaram com vodka.

Apregoam o regresso aos hábitos simples da vida, que é preciso que nos desabituemos de viver acima das nossas posses, e eis que montam, com indecoroso espalhafato, um sorteio de um automóvel de luxo, sabendo, pela certa, que será mais um instrumento de desgraça para aquele a quem, por azar, vier a calhar: alto consumo, elevado imposto de circulação, manutenção dispendiosa, seguro, etc.

Mas o governo, apesar de incorrer em flagrante incongruência, está-se literalmente nas tintas, pois sabe bem que o português, mesmo que tenha que pôr no prego o colar que foi da avozinha, adora parecer rico, que é, convenhamos, o tique fatal de quem se sabe realmente pobre!

Preparemo-nos, portanto, para este novo espectáculo à portuguesa: O secretário de Estado do Tesouro, se não mesmo o Vice-Primeiro Ministro, este mais traquejado nas girândolas das feiras, no “Preço Certo” do Fernando Mendes, o Gordo, (em Espanha, a taluda, é, como se sabe, “el gordo”) a dar à roda – nem sei como se não lembraram desta solução, bem mais em conta e bem mais divertida. E, já agora, com uma inestimável vantagem: audiência garantida!

Ou, por altura do Natal, o Primeiro-Ministro, vestido de Pai-Natal, pela rua do Carmo acima, imitando o aflito pregão do velho cauteleiro do Chiado: “É pra hoje, é pra hoje…hoje anda a roda!”

Enquanto isto, o que anda mesmo à roda é a nossa cabeça!

Por: José Antunes de Sousa
“escreve sem o acordo ortográfico”

Partilhe:




Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*


CAPTCHA Image

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

O site 'ipressJournal' utiliza cookies para melhorar a experiência de navegação do visitante. LER MAIS

The cookie settings on this website are set to "allow cookies" to give you the best browsing experience possible. If you continue to use this website without changing your cookie settings or you click "Accept" below then you are consenting to this.

Close