O IMPASSE

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J.Antunes de Sousa

J.Antunes de Sousa

É desígnio central da vida que ela possa evoluir – não, porém, pela caprichosa e exclusiva intervenção do acaso, como advogam os darwinistas mais ortodoxos, mas pelo impulso demiúrgico da intenção, isto é, da consciência.

Ora, se a atenção de um povo, por via dos mecanismos miméticos da psicologia das massas, estiver fixada num padrão mental de fatalismo, de pobreza é isso precisamente que como realidade sua ele próprio constrói. Estamos no fundo da tabela e é aí que cremos dever estar, nós os portugueses.

E esta mentalidade, esta atitude, é, como se sabe, a de uma atávica mendicância face ao Estado, percepcionado pela gente como uma entidade orwelliana que, distante e cruel, se entretém a vigiar-nos e a cujo controlo importa acima de tudo escapar e iludir. Diabolizando o Estado, haverá que extorquir-lhe o mais possível, pois ele parece-nos apostado em chupar-nos o sangue.
Como romper este cerco? – Perguntar-se-á. Através do ápice de uma nova consciência. De quem? Das élites. Eis o que elas têm que ser, sob pena de não serem senão a versão voluptuosa e poderosa da tacanhez mental do povo – a expressão outra de um novo olhar sobre o mundo. Elas ou são um real acrescento de consciência ou são tão-só a expressão obscenamente potenciada da inconsciência colectiva.

As massas sintonizam-se, estendem-se e perpetuam-se através do modelo mental que as uniformiza – elas estão atadas por uma espécie de cintura emocional que as tolhe e mecaniza na pulsão de um pensar uniforme.

Só quando do seio das massas irrompe uma fulguração mental diferente, uma centelha “mística” (Bergson), ou uma percepção “transhistórica” (Pannikkar), se pode operar a rotura da tal camada espessa de servidão comportamental em que as massas se enlearam.

Só quando surge alguém que force a rotura axiológica do campo da vulgaridade e consiga o clique conexional com uma constelação nova de valores e de desígnios – só então se quebra o ciclo do impasse. Porque, mesmo com novos aeroportos, novas pontes, auto-estradas, ou TGV, que, afinal já não há, nada mudará, nada avançará se não se tiver alterado a consciência e a percepção que de nós próprios temos e do mundo.

Ora, no nosso caso, a pergunta surge naturalmente: o que são as nossas élites saídas do episódio revolucionário? Uma constatação: elas não representam certamente uma irrupção do novo no seio da velha atitude acanhada e fatalista – elas exprimem, mais bem, a corrupção que uma certa novidade propiciou. E isto dói até ao sufoco. Porque as nossas lideranças políticas, não sendo lideranças morais, que manifestamente não são, com uma que outra excepção, como convém a toda a regra, elas constituem uma rede capilar e sistémica de interesses cujo objectivo é servir-se – e convém que todos se sirvam para que o sistema sirva a todos. E é esta espécie de pacto na volúpia vampiresca à roda do banquete do Estado que provoca a “rebelião das massas” à portuguesa que não leva, por isso, a furar o impasse, isto é, não conduz a uma alteração qualitativa da actual situação, antes a agrava. Porque uma rebelião assim é ditada mais que tudo pelo ressentimento e pela inveja de serem só alguns a encherem a barriga, quando tantos há ávidos e necessitados de a encherem igualmente.

Em qualquer caso, o mecanismo permanece o mesmo de sempre: Não nos considerando merecedores de uma natural prosperidade, como direito de consciência, temos que nos “desenrascar” através de um expediente qualquer – que nos proporcione o dinheiro que não julgamos merecer por outra via, a do trabalho, da aplicação, do mérito.

Admiramo-nos que, apesar da recente entrada na União Europeia de vários países de Leste, de Malta e Chipre, continuemos firmemente instalados na cauda dessa Europa? Nenhum motivo há de admiração – e há até uma confortante certeza: lá continuaremos, apesar das diatribes do mais recente personagem mágico que dá pelo nome de “Magalhães”.

Há a animar o espírito de certas élites a presunção de impunidade porque sabem que a crítica dos outros lhes vem sobretudo da inveja de não poderem fazer o mesmo. E eis como se constrói esta situação paradoxal de ser uma secreta admiração a alimentar a acrimónia surda de um povo invejoso. É talvez daí que vem uma espécie de estética da transgressão – abotoar-se com milhões impressiona e motiva a curiosidade, enquanto surripiar um perfume de uma prateleira de hipermercado provoca o desdém: é coisa de ladrão reles e incompetente.

E esta teia mirífica de gente recolhida sob a umbela asséptica de uma Democracia com as costas largas interage alegremente, quase seraficamente, tomados todos de uma espécie de êxtase argentário.

Assim, entre os que se amanham porque podem e os que desesperam porque não podem amanhar-se acontece o empate da nossa mediocridade – é o impasse na negatividade de nós como povo., impasse que só poderá ser vencido com o advento de uma nova estirpe, de uma verdadeira élite, com uma alma nova.

Por: José Antunes de Sousa
“escreve sem o acordo ortográfico”

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