O novo paradigma do trabalho

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Sempre ouvi dizer que o trabalho dignifica o homem. É um chavão que, apesar de tudo, tem o seu quê de verdadeiro, embora muitas vezes usado com intenções dissimuladas e de teor controverso. A questão de se saber se o homem nasceu irremediavelmente para trabalhar ou se o trabalho se deve sobrepor a um cariz lúdico e de pleno gozo da vida, é uma incógnita ou, diria mesmo, uma discussão estéril e sem conclusão definitiva. Mas acordemos, que à luz da nossa sociedade moderna, o trabalho tornou-se indispensável para o homem sobreviver às crescentes solicitações de um mundo pleno de oferta e em que tudo se compra e vende.

Mesmo antes da importância desmesurada que o chamado mercado assumiu nas nossas vidas, hoje em dia, o trabalho constituía uma contrapartida à aquisição de bens e de um certo estado de felicidade que veio sendo inegavelmente associado à capacidade financeira que cada um tinha de alcançar os sonhos materiais que o mundo moderno lhe veio pondo á disposição, na medida em que, vendendo a força e engenho do seu trabalho, o homem podia aspirar a uma imensidão de coisas e a apetecíveis oportunidades, como férias, lazer, cultura, e outras actividades que foram sendo postas á sua disposição, desde que tivesse dinheiro para as pagar. O trabalho, assumia-se pois como uma moeda de troca para atingir estádios de bem estar, proporcionais aos proventos que lhe advinham do exercício do trabalho. A questão da dignidade associada ao trabalho, foi uma maneira capciosa de incutir no trabalhador uma predisposição para trabalhar cada vez mais, na perspectiva de poder alcançar aquilo que outros iam alcançando sem grandes esforços, porque dominavam a área dos negócios ou tinham fortunas de família ou de especulações que pouco trabalho lhes custava.

Mas, desde que se mantivesse um certo equilíbrio entre o esforço de quem trabalhava e aquilo que lhe era pago, como chave mágica para ir, a pouco e pouco, subindo na escala de valores da sua própria economia familiar, o homem foi aceitando esta ligação trabalho-dignidade, com alguma bonomia e mesmo até, alguma compreensão. Claro que nas traseiras de toda esta mistificação das relações entre quem trabalhava e produzia e aqueles que ditavam as leis desse contracto tácito e comummente aceite, residia sempre uma faixa da população que era tida como um mal necessário ou, pelo menos, de difícil resolução, os pobres. A pobreza era um dos factores quase pacificamente aceite, como contrapartida à evolução do comércio, depois da indústria e finalmente dos sistemas financeiros. Pouco havia a fazer para além de a reconhecer, embora surdamente e levar a efeito algumas campanhas e acções presumidamente aceites como boas intenções no sentido de amenizar uma coisa que jamais teria fim. Era o destino a funcionar no seu pleno.

Com a libertação e vitória quase total do capitalismo, como sistema político e económico ideal, porque particamente único, depois da queda do comunismo, o amanhã resplandecente, outrora emblema das sociedade na via do socialismo, passou a ser a miragem finalmente tornada realidade do capitalismo, que cada vez mais se libertava das amarras dum certo controlo e duma ética, apesar de tudo defendida por muitos, mas rapidamente tomado por uma imparável selvajaria e descontrolo que nos colocou na situação, de que todos somos hoje vítimas, prisioneiros ou reféns.

Acabou-se definitivamente com quaisquer acordos tácitos que existiriam entre o mundo do trabalho e o olimpo dos deuses do poder e do dinheiro, por estes considerarem absolutamente desnecessário manter qualquer equilíbrio que desequilibrasse os seus intentos sem fim nem limites para atingirem o clímax do domínio absoluto da força do trabalho de quem já não tinha outras alternativas. Deste estado de sítio proclamado do alto da sua ambição desmedida, rapidamente se passou mesmo, ao domínio do futuro e até das almas de quem trabalha. Hoje em dia, a dignidade do trabalho já não se põe na equação do respeito mútuo, que passou a zero.

Nos dias que correm já ninguém conseguirá conquistar alguma dignidade, trabalhando, porque quem manda a nível global, deixou de reconhecer essa contrapartida, mesmo que mística e filosófica. Quem manda precisa do trabalho daqueles que eles consideram os seus colaboradores, como agora se usa dizer e quem trabalha quase já não tem meios de negociar o custo do seu trabalho ou mesmo do seu engenho. O acto de trabalhar passou a ser apenas uma concessão que quem tem o poder, disponibiliza aos que procuram sobreviver. As leis facilitando o despedimento sobrepõem-se àquelas que o defendiam. A dignidade transformou-se em necessidade absoluta, que não se discute nem se põe em causa.

A classe média, durante muitos anos a espinha dorsal duma sociedade assente em equilíbrios e consensos, mas também na utilidade de um clima de oportunidades, desabou como um baralho de cartas, quando lhe retiraram a base onde assentava, a estabilidade do trabalho. Agora o trabalho continua a ser o principal motor do progresso, mas apenas daqueles que dele podem usufruir, porque os outros ficaram sem alternativas, nem segurança. Ou trabalham ao preço de saldo a que o trabalho se vai acomodando ou, pura e simplesmente, engrossam o desemprego, que é hoje considerado como uma das situações perfeitamente aceitáveis nesta nova realidade. Os desempregados são tão úteis como os que trabalham, para quem se serve da força e engenho do trabalho, porque embora não trabalhem, estão ali, dóceis e quase conformados, à espera que os vão buscar, quando os que trabalham se tornarem incómodos ou quando, na mira de mais e gulosos lucros, os senhores do mundo decidirem aumentar a produção, nem que seja por uma só semana. E depois. escorraçam-nos outra vez das suas hostes domesticadas de trabalhadores obedientes e silenciosos.

O medo, faz o resto. Quanto ao desespero, logo se verá como isto tudo vai acabar…

Ernani Balsa
“escreve sem acordo ortográfico”

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