Os gatos não têm vertigens…

387

O tempo é talvez a maior riqueza que podemos ter. Pelo menos, no meu caso, isso é uma quase certeza. A seguir, a amizade, porque sem tempo, esta não pode nascer, crescer e manter-se. A amizade é sem dúvida mais importante que o amor, na minha perspectiva, porque muito mais forte e perene. O amor vive de muitas mais cedências e imposições, torna-se, em muitos casos, egoísta e mesmo pérfido porque exige mais do que muitas vezes pode dar. A amizade perdura mais e estabelece laços mais íntegros e desinteressados, porque assenta em compromissos que respeitam a liberdade e a individualidade de cada um, sem contractos impositores e castradores.

Mas acima de tudo isto, o tempo concede-nos uma dimensão, sem a qual nada pode acontecer. É por isso mais importante e mais premente para podermos estabelecer todas as outras relações humanas que queiramos experimentar. Nesta conformidade, o tempo requer que o seu uso seja rentabilizado e aproveitado para aquilo que é realmente importante e isso leva-me a, cada vez mais, considerar uma perda quase inútil de recursos, usar essa riqueza com coisas que não compensam. Não há dúvida que as palavras são também urgentes e ajudam-nos a organizar o nosso pensamento e a transmitir aos outros desafios e alertas que podem ser interessantes, mas só o são se levarem as pessoas a tomar atitudes e mais ainda, acções concretas que ajudem a uma mudança efectiva da nossa vida colectiva.

Outra forma de contribuir para uma maior consciência das pessoas, para a necessidade imperiosa e inadiável de tentarmos construir um mundo melhor, é pela arte e cultura em geral. As várias linguagens da arte, como expressão não apenas lúdica e estética das nossas ideias, mas também com exemplos e narrativas de situações reais, mesmo que ficcionadas, são uma via tanto ou mais eficaz para nos levar a reflectir e assim apurarmos a nossa conduta e a nossa maneira de projectarmos melhores dias e consequentemente melhores tempos para o tempo que ainda temos para viver.

Veio-me tudo isto à memória a propósito de um filme português que ontem fui ver, “Os gatos não têm vertigens”, de António-Pedro Vasconcelos. A história, sublimemente contada e trabalhada, com notável interpretação, nos principais papéis, de Maria do Céu Guerra (Rosa) e do jovem João Jesus (Tó), mas também de Nicolau Breyner (Joaquim) que, embora com uma curta aparição física, permanece sempre presente ao longo do filme, é pois uma história de amizade e de afecto no tempo de cada um deles, que são tempos diferentes mas que se entrecruzam na dimensão humana da vida. O tempo de Rosa é o tempo que ela ainda tem para viver, o tempo que lhe sobrou depois da brusca morte de Joaquim e o tempo de Tó é o tempo que ele nunca viveu ainda, perdido que andou em desencontros familiares e encontros fortuitos e frágeis, comuns a tantos jovens que se refugiam num isolamento tribal e marginal, numa fuga constante da realidade que eles não entendem.

Esta, talvez quase improvável, relação de amizade entre uma sexagenária inquieta e irreverente e um jovem desestruturado mas sonhador, qual gato perdido na cidade, faz-nos pensar que o entendimento entre as pessoas é possível, desde que se estabeleçam laços afectivos e humanistas, longe da ameaça dos paradigmas considerados como quase normais, que assentam numa busca constante e cega do sucesso, da vitória sobre o nosso semelhante, como se a vida fosse uma competição sem fim, onde apenas os vencedores têm direito a reclamar a sua parcela de felicidade. Uma felicidade quantas vezes triste, depressiva e sem o brilho de um sorriso, de uma gargalhada, de uma irreverência cúmplice e inofensiva. Sem o prazer de se poder repousar o olhar nos telhados da cidade e acreditar-se que se está perante a visão mais maravilhosa que a vida nos proporcionou. Sem receio de nos abeirarmos da vertigem de um terraço que se debruça sobre o Tejo e não sentirmos essa tontura da instabilidade do ser… Mas esta amizade é também a resposta à insana cultura do confronto entre gerações, receita ultimamente tão usada pelos gurus do egoísmo e da intolerância entre as pessoas…

Perder tempo com o acessório em vez de se investir na felicidade possível pode fazer-nos pensar que desdenhamos a felicidade em prol do politicamente correcto ou das convicções que fomos construindo ao longo do nosso crescimento e da nossa politização, mas por vezes faz mais sentido investirmos, no imediato, naquilo que os nossos sentimentos nos ditam e isso não faz de nós nem desistentes nem vencidos, torna-nos mais humanos, mas também mais preparados para podermos combater com mais consciência e melhores argumentos as injustiças contra as quais nos inquietamos e revoltamos. O facto de nos sentirmos mais sensíveis e ligados por afectos a quem nos traz paz e serenidade, fortalece-nos e dá-nos novas forças e mais engenho para desmascararmos os traficantes da política suja e do poder corrompido. Nada afecta mais os corruptos e os incompetentes do que se confrontarem com o nosso bem-estar interior, com a nossa leveza do ser e com a magia das amizades a bailarem-nos nos sorrisos e nos olhos, sabendo eles que temos perfeita consciência dos seus crimes e malfeitorias e que mesmo a sorrir não baixamos os braços até os desmascararmos em cada dia que passa.

É por tudo isto que tempos alternados de palavras e de afectos se podem complementar e levar-nos a uma tomada de consciência mais efectiva, a uma vontade mais incontrolável de mudar o imutável. Falava-me há dias um amigo na urgência de se caminhar para a desobediência civil, face à delinquência do poder, um caminho consequente depois de se esgotarem as palavras. Não me parece a solução ideal, mas talvez seja a única disponível para alterar significativamente o descalabro do caos instalado pelo poder na vida das pessoas, depois de tantas palavras ditas e ignoradas. Restar-nos-á o afecto para a reconstrução duma sociedade solidária e equilibrada. O tempo continuará a suportar os nossos sonhos e dar-nos-á espaço para recuperarmos da ditadura da teimosia. O tempo será sempre a nossa maior riqueza se o soubermos aproveitar para o bem de todos…

Ernani Balsa
“escreve sem acordo ortográfico”

Partilhe:



Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*


CAPTCHA Image

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

O site 'ipressJournal' utiliza cookies para melhorar a experiência de navegação do visitante. LER MAIS

The cookie settings on this website are set to "allow cookies" to give you the best browsing experience possible. If you continue to use this website without changing your cookie settings or you click "Accept" below then you are consenting to this.

Close