OS VENDILHÕES DO TEMPLO

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Évora é uma cidade a que rumo com alguma frequência. Évora tem um centro histórico digno de ser visto e saboreado. É Património Mundial da Humanidade (UNESCO). Dentro e fora da muralha tem muito para ser apreciado, boa comida par nos saciar a gula e bom vinho para nos temperar as emoções. Évora tem a Fundação Eugénio de Almeida, que é assim como um chapéu protector das necessidades culturais, e não só, de uma população que nem sempre se aproxima, com medo de que a cultura lhes morda as pernas. Mas a Fundação actua a vários níveis e com diferentes valências, respeitando o desejo do seu fundador, de cuidar da alma, do coração e da boca de muitos que necessitam de um apoio ou projectam sonhos mas não têm meios para os concretizar. Évora é uma cidade de ruas e becos e arcos e fachadas milenares, de empedrados num chão por onde já andaram judeus e mercadores, sarracenos e conquistadores. Évora tem a Praça do Giraldo (Geraldo sem Pavor), sala de visitas obrigatória da cidade, tem a Igreja da Graça,  o Largo das Portas de Moura, o Rossio e nas suas cercanias, vestígios e monumentos megalíticos, como a Anta do Zambujeiro  ou o  Cromeleque dos Almendres, que nos fazem recuar mais de dois milénios. Cristianizada logo após a sua tomada aos Mouros, em 1165, Évora é um cadinho de igrejas, uma rica coleção de templos e de memórias religiosas, que passam mesmo pela inquisição.

O novo Fórum da Fundação Eugénio de Almeida, recentemente inaugurado, foi aliás recuperado do antigo Palácio da Inquisição, que depois de passar por diversas transformações e ser palco de várias actividades, apresenta-se hoje como um pólo aglutinador de formas de arte e cultura que dificilmente ali chegariam, não fosse a alargada, esclarecida e pragmática mentalidade de quem dirige aquela área dentro da Fundação.

Aproveitando uma deslocação, por motivo particular, até essa tão bela cidade-museu, propus-me uma visita às exposições que presentemente habitam o Fórum Eugénio de Almeida, mas especialmente uma – INTER(IN)VENÇÃO, uma ampla seleção de obras da colecção do conceituado ZKM | Center of Art and Media Karlsruhe, na Alemanha, o mais importante centro de arte e tecnologia do mundo. Esta mostra de arte, de inusitadas instalações artísticas, numa aliança sempre surpreendente de tecnologia e criatividade, recheada de convites à interacção dos visitantes, mostra-nos que a arte não é algo estático e distante, mas que pode também ser aquilo que nós nela provocarmos com gestos, com voz, com olhares e mesmo aquilo que ela ímplicitamente nos pede, como gesto de simbiose entre objecto e visitante, entre uma ideia original do criador e a sempre inesperada e imprevisível reacção de quem com ela se depara e com ela se confronta. A importância  desta exposição é evidente, principalmente sendo apresentada numa cidade do interior, que muito carece de intervenção cultural e artística.

Terminada a visita, quase em frente ao Fórum, apresenta-se a Sé Catedral de Évora, erguida entre os séculos XIII e XIV, é uma das mais importantes catedrais medievais portuguesas, construída em  estilo gótico  e enriquecida com muitas obras de arte ao longo dos séculos. A sua porta aberta, convidava a mais uma visita, tanto mais que nunca lá tinha entrado. Também a minha paixão pela fotografia, me incitava a registar pormenores do seu interior, num desafio de luz, sombra e cores, tudo envolvido pelo silêncio denso e ao mesmo tempo leve, que sempre paira em qualquer templo religioso. Passada uma das portas de acesso, deparo-me com um balcão de recepção e um cordão atravessado, impedindo o livre e directo acesso à nave da igreja. Dirigi-me ao balcão e questionei uma das senhoras presentes, se era possível visitar a Sé. Responde-me a senhora que sim, pagando o bilhete, no valor de € 1,50. Devo ter assumido um ar de surpresa, pois a senhora olhou-me com uma certa dose de reprovação, como se lhe fosse estranho que eu achasse estranho a estranheza da situação. Voltei a questioná-la, se para visitar a nave da igreja, tinha de pagar. Ela, plena de convicção, confirmou! Acho que lhe disse qualquer coisa, no sentido de não entender o porquê daquela imposição e saí.

Cá fora, olhando melhor o portal da Sé, deparo-me com duas folhas que me abriram os olhos para o meu próprio espanto. Tratava-se duma completa lista de preços, para os diversos tipos de entrada e de visita, bem assim como as normas de conduta para essas mesmas visitas. É claro que o que mais me chamou a atenção, foi o Menu de entradas, um verdadeiro Menu dos Vendilhões do Templo, que o vendem em diversas modalidades, consoante se queira visitar só a Catedral (€ 1,50), a Catedral e o Claustro (€ 2,50) ou a Catedral, os Claustros e as Torres (€3,50), existindo ainda outras ofertas que compreendem o Museu e a Catedral (€ 4,00) ou o “rodízio” completo da Catedral, os Claustros, o Museu e as Torres, tudo por uns simpáticos € 4,50… Eficiente e bem explicadinho… Ali não se brinca!… Qual fé, qual devoção, qual quê!?

Não resiti e voltei a entrar… Eu sou assim, um bocado casmurro e mau de aceitar o que não entendo e ainda menos, aquilo que me revolta. Tinhas mais algumas perguntinhas a fazer às senhoras, que enfim, não tinham culpa daquele “trading “ da fé! Desculpem, mas isto anda tudo ligado, estou agora a ver, é a eterna questão da ida aos mercados, que os nossos governantes tanto propagam. Como muito bem sabem, é também uma questão de fé!… Pode ser que dê ou que não dê, mas tem de se acreditar… É claro que acoisa, na perspectiva dos financiadores, é mais uma questão de fezada, que é, por assim dizer uma corruptela menos respeitável da fé… que os leva a acreditar que os lucros deles estão sempre garantidos!…

Cheio de boa educação e melhores maneiras, pedi desculpa à senhora e disse-lhe que tinha mais umas interrogações… metafísicas… isto não lhe disse, não fosse ela pensar que eu a estava a ofender. Perguntei-lhe simplesmente, como era se aparecesse ali alguém que quisesse apenas rezar?… Ficava-se pela porta, espreitando para o altar, tentando vislumbrar o Senhor na cruz?… Simples, isso mesmo!… Para rezar, era só pagar o bilhetinho de € 1,50… e pronto, cordão levantado, corpo e alma a entrar pela nave central e já podia rezar ou ficar simplesemnte por ali a meditar. Argumentei que aquilo era inconcebível, sendo as igrejas locais de culto, acolhimento, recolhimento e conforto, como era possível que se exigisse o pagamento de um bilhete!?… Argumentos caídos em saco roto, pois não servem ao negócio, a outra senhora, que por acaso estava grávida, informou-me, num último esforço para que eu entendesse o óbvio, que havia algumas excepções, por exemplo, se uma senhora grávida tivesse uma promessa ou devoção para com alguma santa, então poderia entrar… Ao que a primeira senhora, muito solícita, acaba por me informar, que também as pessoas conhecidas, quer dizer, as caras cinhecidas, habituais, podem excepcionalmente entrar sem puxarem os cordões à bolsa. Mostrei a minha ainda maior estupefaccção… Então havia uma modalidade discricionária que se baseava numa elevada tecnologia de “reconhecimento facial”?… Fiquei boquiaberto, mas também sem coragem para continuar o interrogatório. Afinal, as senhoras não eram as donas do negócio, apenas colaboradoras.

O resto que me fica por dizer e seria muito, só às autoridades eclesiásticas da Arquidiocese de Évora faria sentido expor. Não são as quantias em sim que me chocam, mas é a filosofia que reside por detrás de tudo isto, a interpretação do direito ao possível exercício da fé, a um são desempenho de uma devoção que milhares de pessoas terão certamente e que ali, na Sé Catedral de Évora, lhes custará € 1,50, pelo menos… Esta ideia, não sei como lhe chamar, mas cristã não é certamente, de vedar a entrada de quem quer que seja numa igreja, submetendo-a ao pagamento de um bilhete de entrada, é coisa que me revolta, me indigna, me causa engulhos só de tentar admitir… Por isso, perdoar-me-ão os crentes, mas com todo o respeito que tenho por todas as religiões, incluindo aquela segundo a qual fui baptizado, embora inocente, não me considerando um cristão, mas apenas uma pessoa que aceita e respeita as crenças de quem as tem, não posso deixar de chamar a quem aplica esta prática, senão os vendilhões do templo… que se mancham por um pedaço de lentilhas…

Por: Ernani Balsa
“escreve sem o acordo ortográfico”

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