A Padeira de Aljubarrota

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J.Antunes de Sousa

J.Antunes de Sousa

Portugal é um país fatal, porque é, bem vistas as coisas, de fatalismo que se nos vem plasmando a alma desde que o pai de todos nós nos gerou na revolta herética contra a própria mãe. Como se desse começo insultuoso e tortuosamente incestuoso nos ficasse a infectar o sangue um remorso que nos consome.

Tempos houve, porém, em que reagimos com grandeza à fatalidade da geografia e, acossados por uma vizinhança ameaçadora, nos entregámos à fantástica aventura dos mares até quase nos assenhorearmos do mundo – e senhores dele nos teríamos realmente afirmado, não fora a reacção enciumada de quem mal suportava uma grandeza assim em quem tão pequeno considerava.

A nossa epopeia marítima é a expressão áurea da nossa alma em busca do sem fim de si – do próprio absoluto. Como se nos tivéssemos querido expandir como nação até onde nada nem ninguém nos pudesse vergar nem anexar. Como se através da infinitude talássica dos oceanos quiséssemos esconjurar a constrita finitude do pedaço de terra que nos coubera.

E, nesse sonho homérico de dominar os mares para que ninguém nos pudesse dominar, acabámos, contudo, por deixar-nos dominar pelo cansaço do poder, pela ilusão da riqueza e pela tentação da moleza e da inércia. Dir-se-ia até que, não obstante o império conquistado, não deixámos nunca de ter o coração apegado ao quintal.

E a esse quintal regressámos após uma longa e ingénua digressão pelo mundo do encantamento e da utopia. E fizemo-lo com aquele sentimento, tão nosso, de que assim tinha que ser, porque é de nós a aceitação de sermos pequenos por acreditarmos ser essa a nossa verdadeira medida. Com uma nota trágica – é que não é só no que à terra respeita que cremos ser pequenos: temos que sê-lo em tudo, excepto nas dívidas. E é por ser de pequenez o jeito da nossa alma, que nos consumimos de inveja com a camisa lavada do vizinho, ou com o carro que acaba de estrear.

É verdade que ainda fomos tendo, aqui e ali, assomos de insubmissão e de arreganho, como aquele protagonizado, acreditamos nós, pela nossa Dona Brites de Almeida, esse paradigma da nossa veia para o desenrascanço e para o desembaraço, ou por D. Nuno Álvares Pereira, agora São Nuno de Santa Maria, porque tínhamos necessidade de selar com a tutela e bênção de Deus a nossa fúria de povo ameaçado no que cremos ser o seu providencial desígnio de existir. É, de resto, a tal ideia de que gozamos da predilecção de Deus, pois acreditamos firmemente que Ele está sempre do lado dos mais fracos e dos mais pequenos – e isso conforta-nos e confirma-nos nesse estranho gozo de o sermos.

Ou como aquele outro, mais recente e por muitos ridicularizado, certamente por vozes da submissão e da rendição, primeiro, furando o cerco de extremistas ao Parlamento e, depois, erguendo a sua voz grave contra o vergonhoso calote histórico de Olivença. E a verdade é que nos temos aguentado muito à custa de gestos como estes e de alguns gritos da sensatez e da clarividência. É a voz das elites, algumas, poucas e raras, o que sobretudo nos tem valido, razão por que nos alimenta o sangue o sebástico providencialismo, sobretudo quando as nuvens se adensam. Como agora, que tudo parece estar do avesso, com a roubalheira em grande convertida em mais uma fatalidade nacional, com a mania de aparentar grandeza produzindo o pequeno “magalhães” como se assim grandes pudéssemos realmente ser, com esse zelo exemplar e comovente de forçar à igualdade o que é inelutavelmente diferente, em vez de promover igualdade de oportunidades para que todos se pudessem revelar na diferença que, afinal, todos transportamos. E que dizer da candura angelical de um certo ministro congratulando-se, na altura e no vértigo infantil das velocidades, com o facto de Lisboa se tornar, através do TGV, na praia de Madrid?

Resultado: a gente passava a vestir-se em Madrid e a despir-se em Lisboa – e eis como, não contentes com o quintal, nos teríamos tornado no jardim com espreguiçadeiras. O que vale é que, como todas as manias, esta também passou depressa.

Eu acredito, porém, que alguém se possa rebelar contra esta mansidão crepuscular – talvez uma nova padeira de Aljubarrota. Não, porém para espadeirar os castelhanos, mas para nos abrir a cabeça e nos fazer despertar para a grandeza adormecida em nós e para o papel que podemos desempenhar no mundo.

Por: José Antunes de Sousa
“escreve sem o acordo ortográfico”

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One thought on “A Padeira de Aljubarrota

  1. Maria joao lopo de carvalho

    Partilho . Ja leu meu livro “padeira de aljubarrota” gostava muito de ter a sua opiniao!

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