A TABUADA

221
antunes-de-sousa

J.Antunes de Sousa

A obsessão maníaca pelo défice já se viu no que dá: cada vez estamos mais deficitários. É, afinal, no que dá esta nossa provinciana fixação na estatística: cada vez estamos mais longe do resto da Europa. Tanto que até os imigrantes de Leste, conhecidos pela boa boca, começaram já há bastante tempo a debandar. E se isto é assim em tudo, é-o particularmente na Educação.

Mas, que diabo, o que importa é ombrearmos com os demais nos indicadores. Temos um ratio de sucesso escolar muito baixo? Toca a passar o maior número possível de alunos, que, assim, não tarda, teremos equilibrado as estatísticas e ficaremos bem colocados no ranking dos mais espertos. Que esperteza é o que não nos falta – só que é saloia essa esperteza, um típico expediente dos fracos. Levamos décadas a dormir e, de repente, desatámos a correr a toda a brida – mas a pressa dá sempre disparate. Além de que, como diz Séneca, «chega primeiro não quem vai mais depressa, mas quem sabe para onde vai». E este artificialismo estatístico na Educação, na pressa de não perdermos o pelotão europeu, vai produzir uma geração oca, obviamente desorientada e frustrada.

Que se passa, afinal? Isto: toda a minha gente passa. E um professor para “chumbar” (palavra maldita!) um aluno tem que arriscar o seu bom nome em vários impressos de justificação junto do Ministério. Resultado: o professor é um estorvo e o estudo uma maçada a evitar a todo o custo. E que dizer dos famosos exames de aferição do 9º ano? Que não aferiam coisa nenhuma porque, não os tomando a sério os alunos, os resultados só serviam para iludir a estatística. Por isso, tarde, mas lá se decidiram a aboli-los – tão flagrantemente inúteis se haviam revelado!

Ah, porque é preciso educar para a criatividade e não, como dantes, para a memória. É, em parte, verdade, mas a criatividade faz-se também da dialéctica entre o estímulo do antecedente e o voo ousado da imaginação. Pergunto: que mal faz saber de cor os nomes dos rios e das montanhas? A questão é esta: só é possível criar a partir dum núcleo configurador – e aí todo o papel da memória.

Instalou-se a cultura da facilidade – que o Ministério converte em facilitismo (a facilidade alimentada pelo próprio sistema). Só que ela está nos antípodas de uma cultura da felicidade. Para que a felicidade ocorra é preciso pormo-nos a jeito – ter sorte dá muito trabalho. Isto de muitos alunos chegarem ao último ano da Faculdade sem saberem redigir correctamente um parágrafo é bem o sinal doloroso do monstro que este laxismo oficial ajudou a produzir. Os trabalhos são quase sistematicamente plagiados (ao que me dizem, há até empresas, devidamente colectadas, cujo serviço é oferecer trabalhos prontos a entregar, desde licenciatura até doutoramento!). O plágio tornou-se endémico e a fraude uma prática em que a imaginação e o requinte tecnológico se casam em aliança quase inexpugnável. E aí está como, na pressa de nos chegarmos à frente, deitamos fora o que era essencial que preservássemos: a nossa consciência colectiva onde radica a nossa segurança identitária – nesse arrivismo pressuroso é a nossa própria memória que se esvai.

O jovem anderseniano a quem pediram que rezasse respondeu que só se lembrava da tabuada. Mas isso não, que não é uma educação fixada exclusivamente na aritmética fria de uma racionalidade asséptica que queremos. Não. À tabuada há que juntar a brincadeira e a poesia. Sem dúvida. Mas, por favor, sob o pretexto da criatividade, não apaguem o núcleo mítico em que a nossa sociedade, que quer ser saudável, tem que fundar-se e sobre a qual terá que revigorar-se a cada momento histórico.

Caso contrário, preparemo-nos para vivermos no contínuo sobressalto do “arrastão”. Porquê? Porque se está a evacuar a memória dos nossos filhos e, qualquer dia, sem âncora mítica a que se agarrem, resvalam para a rua e juntam-se aos gangs – que têm um líder, rituais iniciáticos – tudo o que é da natureza da mitologia. Uma educação que queira ser só tecnológica, pragmática, uma educação que eduque apenas para o fazer (a que agora chamam eufemísticamente “competências”), o que realmente faz é deseducar.

É preciso trazer de volta a memória à Escola – não para fazer dos nossos filhos papagaios, naquele seu psitacismo tonto, mas para os preparar para o voo altivo e sábio da águia. Está mais que estudado: a melhor taxa de sucesso escolar pertence às sociedades culturalmente sólidas e coesas – as que se organizam sobre um chão firme de valores, esses motivos perenes que moldam a nossa alma colectiva.

Por: José Antunes de Sousa
“escreve sem o acordo ortográfico”

Partilhe:



Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*


CAPTCHA Image

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

O site 'ipressJournal' utiliza cookies para melhorar a experiência de navegação do visitante. LER MAIS

The cookie settings on this website are set to "allow cookies" to give you the best browsing experience possible. If you continue to use this website without changing your cookie settings or you click "Accept" below then you are consenting to this.

Close