UMA ÉTICA DESLIZANTE

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J.Antunes de Sousa

J.Antunes de Sousa

Há na vida deste nosso tempo, neste palco, imenso mas dramaticamente contraído à medida do nosso desatino, um protagonista ubíquo e encantador – ninguém lhe resiste. Ele inunda a cena com a profusa girândola das suas múltiplas cores e insuspeitados matizes. E mais: todos reclamam o exclusivo da sua incondicional veneração. Porque, afinal essa personagem maravilhosa tem os típicos condimentos do mito: todos se lhe rendem, mas quase ninguém o interpreta adequadamente. Nem isso admira, uma vez que o mito é uma imagem destemporalizada e significativa da realidade, é, enfim, uma totalidade de significação que cintila através do olhar situado e turvo de quem o contempla. Assim o amor: todos o reclamam e todos lhe gabam a magia. Só que muito poucos se entendem acerca da sua verdadeira natureza – para uns ele é expressão divina, difusão inesgotável da unidade criativa, enquanto para outros, a maioria, ele irrompe na alvorada festiva dos sentidos e esgota-se, por isso, na fricção inebriante das peles numa espécie de busca sudorífera de uma pretensa fusão definitiva, ainda que incansavelmente reeditada no vaivém dos encontros e desencontros da vida. Num caso, porém, é a alegria da partilha que brota, essa dádiva agápica, enquanto no outro, sobrevém, certeiro como um soco, o súbito vazio após a enxurrada que tudo arrasta.

Não admira, pois, que o papa Bento XVI tenha, na sua primeira e porventura mais importante encíclica, querido fundar na verdade este amor que urge neste nosso tempo de hostilidade – nem é preciso que ela seja a Verdade, a última palavra (quem pode reclamar possuí-la?), mas que esse amor brote da verdade íntima de cada qual. Porque ama a Verdade quem de verdade ama – não há outra maneira para quem tem no seu coração a «medida de todas as coisas». E a realidade que nos atropela na expressão bruta da sua violência é essa, a de um mundo em desalinho, com cada um egoticamente empenhado na exclusão do outro, regurgitando de prazer com a adversidade que bateu à porta do vizinho. Um mundo financeiramente à deriva, entregue à voragem libidinosa do lucro fácil e imediato, um mundo que vê concentrarem-se, de forma obscenamente usurpativa, os imensos e mais que suficientes recursos do planeta no quintal de uns tantos, unidos pelo mesmo e gutural desprezo que pelos demais nutrem e exibem.

É de um mundo assim, áspero e cortante, que tanta gente vem ensaiando a fuga. Como? Iludindo-o. Renega-se este mundo de arestas imaginando-o liso e prazenteiramente deslizante. Não é bem uma fleuma britânica que arremedasse a ataraxia dos estóicos, parece-se mais com o cool e nem é propriamente «uma moral do divertimento» – o fun. Eis como o caracteriza Pascal Bruckner na sua obra A Euforia Perpétua, pg. 74: «A este respeito o fun é contemporâneo do virtual e testemunha como ele a mesma vontade de desmaterializar o mundo, de desorganizar as fronteiras do espaço e do tempo. É um pouco desta dimensão que se encontra nos desportos deslizantes: o surf que se casa com as ondas para melhor as fruir, os patins em linha que transformam o asfalto numa longa fita direita percorrida por sombras de uma elegância prodigiosa que borboleteiam entre os peões e troçam dos obstáculos; o free ride de montanha que torna o esquiador numa ave capaz de dançar no vazio, de sobrevoar as fragas rochosas, de acariciar o pó da neve. Maravilha destas proezas: apagar o corpo por meio do corpo, desafiar a gravidade». É, diria eu, uma espécie de ética soft em que as coisas da vida e do mundo são revestidas de uma imaginada macieza – não a paz, mas a pacificação!

O homem contemporâneo não aguenta este mundo que ele próprio gerou e inventa-se a si mesmo na imaterialidade de um mundo que a todo o vapor se dispõe a negar. Cansado e derreado sob o peso insuportável deste mundo brutal, o homem de hoje empenha-se em consumir dele uma versão mais light para evitar o desconforto de ter que o engolir.

Como dói que se farta a sua realidade, o melhor é cortar-lhe os picos, inventar-lhe uma textura lisa e sobre ela deslizar nos patins, ou nos skis, de uma imaginação em fuga, como o ilustra o dramático e inquietante acidente de Michel Schumacher em Méribel.

Ou como parece indiciar o voo alucinado dos jovens do Colorado, Estado onde o consumo da cannabis sativa acaba de ser legalizado.

Porém, só a verdade salva – só na verdade se pode ser realmente feliz. E eis que regressa o nosso protagonista: «Ama e faz o que quiseres!»

E que se não veja nesta máxima agostiniana um qualquer incentivo ou aval a um egótico hedonismo ou a uma moral assente na pura métrica do interesse individual. Nem sequer uma qualquer sugestão da felicidade na sua versão utilitarista, ao jeito de Jeremy Bentham, condensada na famosa fórmula de «a máxima felicidade para o máximo de gente». Ela corporiza certamente um aval, mas de uma ética da acção humana, uma acção que, por ser humana, só pode ser impulsionada pela consciência da dignidade ontológica que o ser homem implica – e amar a partir da dignidade pessoal é amar, ipso facto, o outro que comunga em absoluto dessa mesma dignidade. E, assim, uma comunidade, forjada no amor decorrente da consciência de se ser o mesmo na diversidade do existir, exprime-se soteriologicamente, isto é, no horizonte de uma humana redenção, como uma verdadeira comunidade de destino – que só assim há verdadeiramente pátria!

Por: José Antunes de Sousa
“escreve sem o acordo ortográfico”

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