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A utopia dos militares castrados…

O novo quadro legislativo que o Minist√©rio da Defesa est√° a preparar, prepara-se para introduzir altera√ß√Ķes √†s liberdades individuais dos militares, que podem ser consideradas um verdadeiro atentado ao seu direito √† cidadania. Mais ainda, estas altera√ß√Ķes podem n√£o s√≥ atentar contra a liberdade c√≠vica dos militares, mas tamb√©m p√īr em causa a verdadeira ess√™ncia das For√ßas Armadas, agredindo a sua inalien√°vel liga√ß√£o √† sociedade civil e mais profundamente ainda, ao povo portugu√™s, do qual emanam por natureza. Isto, assume pois, a forma premeditada de um atentado √† sua pr√≥pria raz√£o de existir.

Neste novo projecto legislativo, considera-se que, no exerc√≠cio da “capacidade eleitoral passiva”, no que respeita aos militares, e s√≥ esta joia sem√Ęntica, j√° diz muito sobre as verdadeiras inten√ß√Ķes do legislador, os militares que optem por tomar posse de cargos para que tenham sido eleitos, ter√£o que ser abatidos aos quadros das For√ßas Armadas. Quer isto dizer, em linguagem comum, que os militares que queiram exercer a sua cidadania, sujeitando-se a votos para qualquer elei√ß√£o de lugares pol√≠ticos, para os poderem exercer, ser√£o obrigados a abandonar definitivamente as For√ßas Armadas, deitando fora toda uma carreira que j√° tenham e a possibilidade de a retomarem, ap√≥s o exerc√≠cio do cargo para que foram eleitos e decidiram desempenhar.
Veio o Ministro da Defesa Nacional (MDN) a terreiro, tentar justificar esta medida e f√™-lo da pior maneira. Alega o MDN que a raz√£o de ser desta brutalidade √© manter as For√ßas Armadas absolutamente apartid√°rias. Esta fixa√ß√£o abstracta e obtusa no apartidarismo das For√ßas Armadas √© poeira que se atira √† intelig√™ncia dos cidad√£os, s√≥ para “√©pater le bourgeois”, e isto porque ningu√©m √© clinicamente apartid√°rio e mesmo aqueles que o dizem ser, fazem-no apenas como inten√ß√£o, pois o apelo √† prefer√™ncia, seja por que linha pol√≠tica ou partid√°ria for, √© praticamente imposs√≠vel de ser anulada. Quem tem capacidade de pensar, tem sempre uma tend√™ncia natural e inultrapass√°vel para optar e optando, est√° a tomar partido por qualquer coisa. Mas, para al√©m disso, como √© que se conjuga esta utopia de apartidarismo com o facto dos militares terem direito a voto?…

Alega o MDN, que um militar, depois de exercer um cargo pol√≠tico de elei√ß√£o, n√£o est√° apto em isen√ß√£o para voltar a juntar-se √†s fileiras da institui√ß√£o militar. Ora isto levanta uma d√ļvida e uma suspei√ß√£o da m√°xima import√Ęncia. Quer isto dizer que o mundo da pol√≠tica partid√°ria infecta e contamina os cidad√£os de alguma doen√ßa incur√°vel, no √Ęmbito da sua idoneidade e honorabilidade, que os torna impuros?… Ent√£o podemos concluir, que o mundo da pol√≠tica partid√°ria √© um mundo desaconselh√°vel e prom√≠scuo que torna o cidad√£o pass√≠vel de suspei√ß√£o, quanto √† sua integridade e honra pessoal. Ent√£o andamos todos metidos e governados por pessoas de seriedade e conduta duvidosas…

Por outro lado, que dizer do apartidarismos das For√ßas Armadas, quando o Ministro que as tutela √© membro efectivo de um partido pol√≠tico? Temos aqui uma situa√ß√£o inegavelmente absurda, uma vez que a tal contamina√ß√£o de “partidarismo” nas For√ßas Armadas, est√° alojada no seu topo!…

Podemos ainda abordar a quest√£o sob um outro ponto de vista. Para se conseguir o desiderato de umas For√ßas Armadas clinicamente apartid√°rias, a sua tutela deveria ent√£o recair sobre um Oficial General de um dos ramos das For√ßas Armadas, expurgando-se assim a possibilidade de cont√°gio do “maldito partidarismo”, logo a partir da c√ļpula. N√£o sei bem se esta hip√≥tese agradaria a t√£o preocupada personagem, como parece ser o actual MDN. Mas levando a quest√£o aos limites do absurdo, coisa que n√£o me admiraria, tendo em conta a mentalidade destes c√©rebros iluminados, as For√ßas Armadas deveriam viver em reclus√£o, sem qualquer contacto com o povo e para evitar qualquer partidariza√ß√£o, o melhor seria instituir-se de novo um estado, n√£o de direito, mas de torta, retorcida e reinventada democracia, de partido √ļnico e sem ideologia alguma, aquilo a que normalmente se designa por ditadura. N√£o seria o apartidarismo perfeito, uma vez que ainda continuava a existir um partido, mas seria com certeza um elogio √† nulidade de intelig√™ncia e ao esvaziamento da capacidade de optar. Como se sabe, a √ļnica ideologia associada a uma ditadura, baseia-se geralmente em duas pr√°ticas muito comuns, a opress√£o e o obscurantismo, muito eficientes na preven√ß√£o do perigo de dissemina√ß√£o de outras ideologias ‚Äúrevolucion√°rias‚ÄĚ.

Talvez seja isto que ferve na cabe√ßa dos nossos queridos governantes, que como se sabe, s√≥ pensam no bem estar do povo e nunca no deles e evitariam a todo o custo o cont√°gio popular de outras formas perigosas de pensar o pa√≠s… Eles estariam pois dispostos a anular a democracia, s√≥ para evitar a partidariza√ß√£o do que quer que fosse, at√© mesmo deles pr√≥prios…

Por: Ernani Balsa
“escreve sem acordo ortogr√°fico”

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O novo quadro legislativo que o Minist√©rio da Defesa est√° a preparar, prepara-se para introduzir altera√ß√Ķes √†s liberdades individuais dos militares, que podem ser consideradas um verdadeiro atentado ao seu direito √† cidadania. Mais ainda, estas altera√ß√Ķes podem n√£o s√≥ atentar contra a liberdade c√≠vica dos militares, mas tamb√©m p√īr em causa a verdadeira ess√™ncia das For√ßas Armadas, agredindo a sua inalien√°vel liga√ß√£o √† sociedade civil e mais profundamente ainda, ao povo portugu√™s, do qual emanam por natureza. Isto, assume pois, a forma premeditada de um atentado √† sua pr√≥pria raz√£o de existir. Neste novo projecto legislativo, considera-se que, no…

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4 comments

  1. J. A. M- Martins

    Pois é, lembrem-se que afinal, nós estamos a ser governados pelos filhos dos vencidos em Abril de 1974.

  2. Manuel Bernardo (Cor. ref.)

    Continuo a pensar que este Aguiar Branco devia ser demitido de Ministro da Defesa Nacional, face √†s asneiras que tem praticado ao longo do seu mandato. Para mim a mais grave foi a da Sa√ļde Militar, fechando hospitais militares quando ainda n√£o havia capacidade suficiente (nem hoje ainda h√°) para juntar tudo no Lumiar; e a agora esta inven√ß√£o de apartidarismo, que pretende impor no Estatuto das F. Armadas! Parece que ele continua a fazer visitas a Unidades Militares, apenas avisando de v√©spera, para evitar ser muito contestado pelos militares que o recebem!

  3. Triste povo que se deixa subjugar pela ditadura democr√°tica…ser√° finalmente dada a ultima machada nos militares que libertaram este pa√≠s de uma ditadura de 40 anos que j√° ningu√©m quer saber…
    sempre os pol√≠ticos deste burgo o desejaram…n√≥s temos vindo a recuar… eles est√£o quase a ganhar a guerra…ser√° que ainda temos for√ßa para ganhar a ultima batalha…???

  4. António d'Almeida

    Felicito-te pelo excelente texto.
    Esta ave no poleiro mais alto da Defesa √© s√≥ mais um elo duma j√° longa corrente que tem como objectivo o aniquilamento da Institui√ß√£o Militar e que,fundamentalmente,se apoia em dois “pilares”,o antagonismo (ou √≥dio) anti-militarista e o receio (ou medo) da sua hipot√©tica interven√ß√£o na gest√£o da res publica.

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