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BIPOLARIDADE РUma História Fusional que parece que corre mal

Nuno Gonçalves

Nuno Gonçalves

A filologia √©, por excel√™ncia, a disciplina debru√ßada sobre as quest√Ķes sem√Ęnticas. Todos sentimos qu√£o importantes s√£o os voc√°bulos e correspondentes conte√ļdos e acep√ß√Ķes para que, para al√©m de nos fazermos entender, sejamos capazes de pensar.

H√° anos que re√ļno epis√≥dios, em primeira pessoa, transmitidos ou discutidos, dessa mol√©stia pand√©mica sincr√©tica que se designa por Bi-Polaridade ou, por raz√Ķes de conveni√™ncia gr√°fica e est√©tica, por Bipolaridade.

Acontece que s√£o escassos aqueles que se recordam das entidades agora condensadas numa designa√ß√£o patognom√≥nica √ļnica. Quase s√≥ aqueles que ainda foram contempor√Ęneos da Var√≠ola t√™m bem presente na sua etiologia e express√£o sintom√°tica a Depress√£o, nas suas m√ļltiplas express√Ķes, e a PMD, acr√≥nimo da ainda bem conhecida de nome, Psicose Man√≠aco Depressiva. Esta agrega√ß√£o de duas entidades patol√≥gicas funde o que ocorre por perturba√ß√£o org√Ęnica de base e o que corresponde a perturba√ß√Ķes no desenvolvimento afectivo.

Os cl√≠nicos mais jovens foram formados no monismo bipolar. As suas investiga√ß√Ķes bibliogr√°ficas, obedecendo ao princ√≠pio da actualidade, priva-os do estudo mais detalhado das duas maleitas, agora estampadas numa s√≥. Acresce que at√© a farmoterap√™utica difere e ocorrem casos de, numa identifica√ß√£o correcta √† luz dos protocolos diagn√≥sticos, se prescreverem neurol√©pticos a quem devia ingerir antidepressivos com consequ√™ncias inesperadas e alguns sustos de permeio.

Tanto discurso, ainda não saí do lodaçal e, em termos práticos, ainda não disse nada. Pois bem.

O que define a bipolaridade √© a manifesta√ß√£o numa mesma pessoa, sequencialmente ou rebuscadamente recorrendo √†s monopolaridades como sub-etiopatogenias da bipolaridade, de estados de humor paradoxais. O doente √© afectado ora por crises disf√≥ricas (tristeza e prostra√ß√£o depressiva, ang√ļstia e demais sofrimentos psicol√≥gicos) ora por exacerba√ß√Ķes de humor que se traduzem num estado de alegria ou euforia (crise hipoman√≠aca) que reverte o quadro de desespero.

Acontece que, num af√£ fusional, se trocam alhos com bugalhos baralhando tanto os t√©cnicos, de forma√ß√£o mais recente que pouco privaram com as crises anteriores ao sucesso da farmacologia no tratamento das perturba√ß√Ķes mentais, como os pr√≥prios doentes que ami√ļde n√£o entendem um quadro patol√≥gico em que n√£o se rev√™em.

A Psicose Man√≠aco-Depressiva (PMD) √© uma doen√ßa mental que podendo ter um desencadeante afectivo √© na sua ess√™ncia uma doen√ßa de base org√Ęnica com significativa express√£o heredit√°ria. A fase depressiva da PMD caracteriza-se por uma profunda ang√ļstia sem objecto, uma ang√ļstia profunda e vazia. √Č comum o doente com PMD apresentar pobreza afectiva, mesmo indiferen√ßa afectiva no plano relacional. A disforia da PMD √© implosiva, desesperada, sem horizonte. Paradoxalmente, estes doentes, quando reverte o quadro depressivo, manifestam estados de agita√ß√£o psicol√≥gica evidenciando um optimismo inadequado e irreal, com sentimentos de grandeza, de auto-sufici√™ncia, curso acelerado do pensamento e da ac√ß√£o, ficando os actos e as frases por concluir, com frequ√™ncia tal a jact√Ęncia que os acomete. As ideias fl√ļem com uma velocidade e energia que o tempo, por insuficiente e demasiado lento para a necessidade, n√£o chega para agir e expressar tudo. A prud√™ncia e a sensatez s√£o v√≠timas nestes acessos e com frequ√™ncia estes epis√≥dios resultam em avultados preju√≠zos patrimoniais. As crises hipoman√≠acas da PMD podem durar dias ininterruptos gerando riscos efectivos para o doente que pode, qual corredor da maratona, ser v√≠tima da exaust√£o f√≠sica. Estas oscila√ß√Ķes de humor, ora disf√≥rico ora euf√≥rico, recebem a designa√ß√£o gen√©rica de labilidade afectiva.

Ora a Bipolaridade integra o quadro que descrevi, muito sucintamente, e a depress√£o seja em que grau e natureza for dado que valoriza de forma equivalente, para efeitos de diagn√≥stico as oscila√ß√Ķes de humor.

Ora, a Depress√£o √© uma doen√ßa que, n√£o obstante a sua express√£o org√Ęnica, tem um car√°cter marcadamente afectivo. Ou seja, a Depress√£o resulta da inadequa√ß√£o dos mecanismos de defesa (coping) face aos desafios da realidade.
A capacidade de lidar e enfrentar os desafios que a vida apresenta à pessoa depende da sua solidez psicológica e esta depende da força afectiva que foi capaz de reunir e consolidar ao longo do seu desenvolvimento psicológico. Tanto assim é que o psicoterapeuta identifica quais os pontos de desenvolvimento em que não se verificou o crescimento afectivo harmonioso.

Confrontada com situa√ß√Ķes melindrosas e exigentes, a pessoa cujos recursos n√£o bastam para enfrentar o que sente estar acima das suas capacidades reverte a raiva e frustra√ß√£o em sentimentos de insufici√™ncia, de incapacidade, culpando-se, abatendo a auto-estima e comprometendo o amor-pr√≥prio.

O sofrimento psicol√≥gico do deprimido adv√©m dos seus sentimentos de incapacidade de reverter o seu quadro, da auto-culpabiliza√ß√£o por n√£o ter for√ßas, capacidade nem compet√™ncia para sair da tristeza, ang√ļstia por sofrimento e impot√™ncia. A disforia da depress√£o resulta do sentimento de impot√™ncia acrescendo o medo de recear nunca mais capaz de sair desse estado de colapso. Em todo o processo o deprimido possui o sentido cr√≠tico que, exacerbado, aumenta ainda mais o seu padecimento.

A depressão gera um sentimento de queda inexorável que a pessoa sente imparável e sem fundo revoltando-se consigo própria e com a inutilidade da sua luta para encontrar uma saída. Quando sente que já não podia ser pior, descobre que está equivocada. Surgem então, nesta espiral descendente, um momento em que se sente emergir, de aparente acalmia que dão a ilusão de finalmente se ter batido no fundo e que a partir de então a pessoa começará a guindar-se para emergir desse poço sem fundo e recuperar-se e recomeçar a sua vida. São momentos de descarga, de emoção, de esperança, de crença que o sofrimento e a queda terminaram e que a partir de então se vai recuperar a vida e extinguir a dor.

A alegria do fim da agonia, ilusório no entanto e como perceberá em breve, leva a pessoa deprimida a experimentar uma energia e uma alegria intensas, quase como se estivesse a viver uma espécie de reconversão que a leva a fazer planos, sair de casa, recuperar sequiosa a vida perdida. Comunica à família e amigos, impacientes com o já longo curso de uma doença que não se vê nem percebe, que o pior já passou. Que se sente curada, partilhando o sucedido numa quase desculpa velada. Estes momentos de compreensível alegria (não euforia) são valorizados, em termos diagnósticos, como uma polaridade oposta à disforia.

Atendendo que o depressivo rapidamente abate de novo, mesmo com retrocesso do quadro por fadiga e por aus√™ncia de revers√£o efectiva do curso da doen√ßa, re√ļne a caracteriza√ß√£o que serve de base para classificar a altern√Ęncia dos estados afectivos como Bipolaridade.

Tenho debatido esta quest√£o com colegas e psiquiatras com quem trabalho em equipa e a percep√ß√£o que partilhamos √© que o quadro diagn√≥stico actual traz mais dificuldades no apoio ao doente dado juntar sob uma mesma designa√ß√£o patologias com caracter√≠sticas diversas e marcadamente distintas. Atente-se que, integradas num mesmo diagn√≥stico, as terap√™uticas diferem e exigem do m√©dico, em particular, e do psic√≥logo, interven√ß√Ķes espec√≠ficas e distintas consoante se apresenta a doen√ßa.

A modernidade é uma vantagem que a História nos permite mas uma consulta aos clássicos pode ser uma mais-valia melhorando as nossas competências na avaliação dos quadros que nos surgem e de que abundam registos na literatura.

Como remate não resisto a referir as referências encomiásticas aos modernos recursos de diagnóstico que descobriram evidências dos reflexos da depressão nas estruturas cerebrais, nomeadamente nos lobos frontais. Ora esta descoberta da imagiologia tem a correspondência com diagnóstico correcto e registo minucioso nas pesquisas quase seculares dos anatomopatologistas pioneiros.

Por: Nuno Gonçalves
‚Äúescreve sem o acordo ortogr√°fico‚ÄĚ

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