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BREVE ENSAIO SOBRE O DIREITO DE REVOLTA…

Ernani Balsa

Ernani Balsa

Tem sido not√≥ria a vaga de protestos, manifesta√ß√Ķes e outros movimentos de car√°cter revolucion√°rio que nos √ļltimos anos t√™m vindo a acontecer nos mais diversos pa√≠ses do mundo. Movimentos que surgem quase do nada, mas que assentam numa sensa√ß√£o progressiva de mau estar, de tiques autorit√°rios ou mesmo ditatoriais, de exerc√≠cio de v√°rios tipos de poder que n√£o respeitam os direitos mais fundamentais das popula√ß√Ķes ou ent√£o de desvios duma linha democr√°tica, que progressivamente se vai afastando daquilo que os cidad√£o entendem ser o caminho certo e desej√°vel, desvios esses que genericamente se consubstanciam numa crescente pr√°tica de corrup√ß√£o aos mais variados n√≠veis, num despesismo, ora bacoco ora arrogante, sem qualquer respeito pelos cidad√£os, desviando capacidades financeiras necess√°rias ao desenvolvimento da sociedade, para obras fara√≥nicas de duvidosa utilidade ou tendo apenas como objectivo favorecer agentes ou grupos econ√≥micos pr√≥ximos de poderes corruptos, numa obscena promiscuidade entre poder e especula√ß√£o econ√≥mica e financeira.
Talvez, de entre esta vaga de rebeli√Ķes populares, as mais surpreendentes tenham sido aquelas a que se convencionou chamar de Primavera √Ārabe, porque a√≠, a todas as causas acima mencionadas, se juntou uma quest√£o religiosa, que p√īs em causa os estados do norte de √Āfrica e mesmo do M√©dio Oriente. Sem querer analisar em profundidade cada uma delas, √© f√°cil reconhecer que as popula√ß√Ķes desses pa√≠ses, como por exemplo, a Tun√≠sia, o Egipto, a Arg√©lia, o Bahrein, o Djibuti, a Jord√Ęnia, o Om√£ e¬† o I√©men, para citar os principais e com menor visibilidade, o Kuwait, o L√≠bano, a Maurit√Ęnia, Marrocos, a Ar√°bia Saudita, o Sud√£o e o Saara Ocidental, encontraram nas mais diversas contradi√ß√Ķes entre um leg√≠timo desejo de maior democracia e a asfixia religiosa, castradora das mais b√°sicas ansiedades de liberdade individual dos seus povos, um mote para finalmente se rebelarem contra o ‚Äústatuos quo‚ÄĚ de sociedades retr√≥gradas e punitivas.
Mais recentemente, a situa√ß√£o ainda em evolu√ß√£o na Turquia, onde o simples pretexto de uma revolta popular contra a destrui√ß√£o de uma das principais zonas verdes de Istambul, para a constru√ß√£o de um centro comercial, serviu de rastilho para uma generaliza√ß√£o dos protestos, com significativas manifesta√ß√Ķes de milhares de pessoas, n√£o s√≥ em Istambul como em Ankara e noutras cidades do pa√≠s, veio mostrar-nos como qualquer pequeno conflito popular, pode crescer inesperadamente e tornar-se numa verdadeira rebeli√£o que vai agregando muitos outros motivos de protesto e que, na maior parte dos casos, confluem sempre num mau estar latente da sociedade, facilmente inflam√°vel pelo descontentamento e falta de perspectivas da popula√ß√£o mais jovem, mas que no final acaba por arrastar enormes multid√Ķes de todas as idades, g√©nero e condi√ß√Ķes sociais e mesmo de diferentes credos. A Turquia, na sua posi√ß√£o de fronteira entre uma Europa que progressivamente se vai desagregando no seu sonho comunit√°rio e um oriente em permanente ebuli√ß√£o, assume assim uma relev√Ęncia especial, pelo que n√£o nos devemos alhear do que l√° se passa e antes pelo contr√°rio, devemos tentar compreender o alcance de mais esse mau estar, a juntar a muitos outros.
Eis sen√£o quando, o Brasil surge agora como o mais recente palco deste tipo de confronta√ß√Ķes sociais, mas de cariz eminentemente pol√≠tico, com o tremendo impacto que se pode testemunhar pelas imagens que os canais noticiosos de televis√£o nos trazem em todos os notici√°rios. Surpreendentemente, quando se julgava que tudo corria pelo melhor naquele gigante da Am√©rica do Sul, depois de grandes mudan√ßas pol√≠ticas e sociais, com a economia a crescer e o povo aparentemente mais bem cuidado, um pequeno detalhe, t√£o pequeno quanto vinte c√™ntimos do Real de aumento nos bilhetes dos transportes p√ļblicos, foi o pretexto para manifesta√ß√Ķes cada vez maiores, com in√≠cio em S. Paulo, mas que rapidamente se alastraram a todo o territ√≥rio, num crescendo que soma, segundo as √ļltimas not√≠cias, cerca de uma centena de cidades, incluindo j√° Bras√≠lia, a capital federal. Do pequeno pretexto de vinte c√™ntimos, tudo cresceu at√© um estrondoso grito de protesto contra os despesismos do estado, com especial relev√Ęncia para o que est√° a ser gasto em todas as infra-estruturas para o Mundial de Futebol. Mas tamb√©m contra a corrup√ß√£o, um dos mais graves problemas do pa√≠s. A situa√ß√£o √© de tal modo grave, porque a rebeli√£o popular cada vez cresce mais, que as autoridades receiam sequer imaginar at√© onde a determina√ß√£o do povo poder√° ir. Seria quase impens√°vel que o futebol, assunto quase sagrado no Brasil, servisse de motivo de protesto do povo brasileiro, se bem que a honra da sua selec√ß√£o seja mantida inc√≥lume, mas a revolta tem antes a ver com o despesismo faustoso que est√° a ser feito nos est√°dios e outras obras de apoio, o que n√£o agrada √† maioria da popula√ß√£o, que acha que esse dinheiro seria mais bem empregue para a consolida√ß√£o do pa√≠s.
Todos estes movimentos sociais t√™m tido um aliado e linha condutora comum. A globaliza√ß√£o das comunica√ß√Ķes atrav√©s da Internet e a capacidade e for√ßa de penetra√ß√£o das redes sociais, que veiculam todos os acontecimentos em tempo quase real. Para as autoridades dos pa√≠ses que se confrontam com estas situa√ß√Ķes, isto √© um elemento dif√≠cil de controlar, embora nas situa√ß√Ķes mais radicais se possam encontrar meios de combater esta dissemina√ß√£o de informa√ß√£o. Este elemento important√≠ssimo de difus√£o de not√≠cias e de estabelecimento de contactos e convoca√ß√£o de manifesta√ß√Ķes, tornou-se assim de grande relevo, quer a n√≠vel interno dos territ√≥rios onde as ac√ß√Ķes se desenvolvem, quer na divulga√ß√£o das not√≠cias a n√≠vel internacional, o que faz destes acontecimentos, processos globais de angaria√ß√£o de apoios e informa√ß√£o generalizada.
Leva-me esta breve abordagem sobre estas novas formas de indigna√ß√£o, rebeli√£o e exerc√≠cio extremo da cidadania a dedicar alguma aten√ß√£o √† situa√ß√£o portuguesa, no que respeita √† situa√ß√£o de grave crise que atravessamos. √Č certo, que em muitas das regi√Ķes ou pa√≠ses em que este tipo de ac√ß√Ķes tem eclodido, esse estado de contesta√ß√£o acaba por ser ef√©mero, mas a sua afirma√ß√£o √© de tal modo assertiva e determinada que os seus efeitos acabam por produzir resultados, mesmo que n√£o sejam todos aqueles que se propunham obter. Em Portugal, na presente situa√ß√£o, √© verdade que j√° se t√™m esbo√ßado movimentos com algumas dessas caracter√≠sticas, mas seria de esperar que, dada a gravidade das pol√≠ticas seguidas por um governo que vendeu a sua legitimidade ao diabo, a determina√ß√£o fosse muito maior e que, mesmo sem viol√™ncia, as ac√ß√Ķes de protesto e revolta levadas a cabo at√© agora, j√° pudessem ter produzido alguns efeitos, face √† arrog√Ęncia do poder e mesmo √† viol√™ncia com que imp√Ķe os seus modelos de reformas e cortes nas capacidades econ√≥micas de um grande n√ļmero de portugueses. A viol√™ncia n√£o se restringe √† sua vertente f√≠sica, mas abrange tamb√©m uma vertente psicol√≥gica, amea√ßadora e mesmo punitiva, que deveria merecer mais firmeza por parte de quem sente na pele os constantes ataques do governo. A situa√ß√£o a n√≠vel nacional exigiria uma contesta√ß√£o mais efectiva e consequente, de modo a combater, com instrumentos de igual peso, a falta de respeito, por parte do governo, em rela√ß√£o √† integridade e dignidade de um povo que n√£o pode ser culpado de tudo o que aconteceu, enquanto aqueles que verdadeiramente s√£o os respons√°veis pelo descalabro econ√≥mico e financeiro em que nos encontramos, circulem por a√≠ impunemente e ainda acusem os portugueses dos males que eles nos causaram e continuam a causar.
Esta aparente letargia dos cidad√£os, s√≥ pode ter como causas os quarenta e oito anos de ditadura do Estado Novo, que gerou gera√ß√Ķes inteiras de pessoas contidas, conformadas e receosas. Pessoas que n√£o reagiam porque lhes foi incutida a ideia de que educa√ß√£o e cidadania eram sin√≥nimo de aceita√ß√£o de todos os infort√ļnios da vida. O conformismo era a grande virtude apregoada pelos em√©ritos educadores do povo. Mesmo assim, desta gera√ß√£o que fez a viragem do fascismo para a democracia, muitos h√° que conseguem pensar por si pr√≥prios e se adaptaram √† viv√™ncia numa sociedade democr√°tica e nela exercem os seus direitos e obriga√ß√Ķes de forma digna e bem acordados, Mas que dizer ent√£o da gera√ß√£o p√≥s 25 de Abril?… Podemos encontrar talvez a resposta a esta quest√£o, na disfuncional ac√ß√£o dos chamados partidos do arco da governa√ß√£o, que em vez de abrirem as suas estruturas ao pa√≠s novo que renascia, enclausuraram a juventude que a eles aderiu, nessa forma encapotada de universidades do poder, os ‚ÄúJotas‚ÄĚ, para assim fazerem perdurar na vida pol√≠tica do pa√≠s, uma ra√ßa, em parte amorfa e em parte igualmente conformada, que pacientemente aguarda na fila a sua vez de imitarem os pol√≠ticos mais velhos, com todos os tiques, defeitos e artimanhas de preserva√ß√£o do poder a qualquer custo. √Č claro que esta nova gera√ß√£o n√£o vai p√īr nada em causa, porque nessa sua quietude reside a esperan√ßa de um lugar no carrossel do poder. Quando o que se lhes pedia seria inquietude e insatisfa√ß√£o, d√ļvidas e busca de novas solu√ß√Ķes. Integridade e dignidade tamb√©m!…
O resto da juventude poder√° ter todas estas qualidades, mas n√£o chega, porque dos fornos de brando lume dos partidos do poder, est√£o constantemente a sair mortos vivos, jovens velhos e conformados com o futuro que j√° lhes foi injectado durante os seus anos de forma√ß√£o. Este tipo de nova gera√ß√£o tem j√° a formata√ß√£o daqueles que se v√£o retirando e assim sucessivamente, porque o seu √ļnico objectivo √© o poder e n√£o o servi√ßo p√ļblico de ajudar a construir o pa√≠s. E o poder √© incompat√≠vel com o futuro.
Por: Ernani Balsa
‚Äúescreve sem o acordo ortogr√°fico‚ÄĚ

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