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DERRAPAGENS IDEOL√ďGICAS

Ernani Balsa

Ernani Balsa

No actual léxico político-económico, há já bastante tempo que tinha sido introduzido o conceito de derrapagem, para classificar o desvio de valores orçamentais, nas suas mais variadas vertentes, quando o verdadeiro valor atingido, apresentava uma diferença para mais, relativamente ao valor inicialmente ajustado e inscrito nos orçamentos em causa.

Este tipo de derrapagem tornou-se t√£o comum, que quase passou a ser considerado como regra, relegando para o campo do pouco prov√°vel o esperado cumprimento dos n√ļmeros oficialmente inscritos nos or√ßamentos. Obra, empreendimento ou outro qualquer tipo de despesa a ser paga pelo Estado, passou ent√£o a medir-se, em termos de cumprimento, pela menor diferen√ßa poss√≠vel entre o valor oficial e aquele que verdadeiramente conseguia ser atingido, depois de todos os n√£o cumprimentos dum limite que passou a ser naturalmente negligenciado ou mesmo assumidamente ignorado.

A pr√°tica comummente aceite, acabou por digerir esta real anomalia e inscrev√™-la, n√£o no exig√≠vel, mas sim no poss√≠vel, sem que essa falta de precis√£o e de respeito pelos n√ļmeros, parecesse abalar a integridade e idoneidade de pessoas respons√°veis e institui√ß√Ķes, tanto oficiais como empresariais.

Mas o efeito derrapagem, n√£o mais abandonou o mundo da pol√≠tica nacional. Hoje em dia, o tipo de derrapagem mais em voga √© a derrapagem ideol√≥gica, fen√≥meno que tem a ver com a diferen√ßa entre aquilo que v√°rias for√ßas partid√°rias dizem continuar a ser e aquilo que realmente praticam e defendem no seu exerc√≠cio pol√≠tico do dia-a-dia. Uma coisa √© a matriz program√°tica inscrita nos princ√≠pios e estatutos de partidos pol√≠ticos, outra √© a realpolitik praticada pelos seus aparelhos e descaradamente defendida em programas e proclama√ß√Ķes.

No quadro partidário português, casos há, que são verdadeiramente representativos deste tipo de derrapagem.

Tomemos como primeiro exemplo, o Partido Socialista (PS). Fundado em 19 de Abril de 1973, na Alemanha, por militantes da ent√£o Ac√ß√£o Socialista Portuguesa e tendo como seu primeiro Secret√°rio-geral, M√°rio Soares, o PS afirmou-se numa linha demarcada pelo Socialismo e Liberdade, numa expl√≠cita alus√£o a um conceito cuja principal fonte de inspira√ß√£o era uma sociedade sem classes e sem Marxismo. Querendo com isto demarcar-se do ent√£o j√° existente Partido Comunista Portugu√™s (PCP), foram estes princ√≠pios ideol√≥gicos que marcaram os seus primeiros anos de exist√™ncia, com especial relevo para a sua pronta ades√£o ao programa do Movimento das For√ßas Armadas, proclamado na madrugada de 25 de Abril de 1974. Depois duma forte oposi√ß√£o a pretensas manobras marxistas do PCP, conseguiu marcar a sua posi√ß√£o no terreno, n√£o tendo, para tal, hesitado em ‚Äúmeter o socialismo na gaveta‚ÄĚ, para melhor se demarcar de concep√ß√Ķes mais esquerdistas, que lhe dificultavam a chegada ao poder, como sempre foi sua ambi√ß√£o. De concess√£o em concess√£o, de reconfigura√ß√£o em reconfigura√ß√£o, o PS √© hoje em dia um partido muito mais pr√≥ximo duma matriz social-democrata, nunca verdadeiramente assumida, o que faz dele apenas um partido com tradi√ß√Ķes, mas sem uma linha de orienta√ß√£o que o distinga relevantemente dos outros actuais partidos do arco do poder (ou da governa√ß√£o, segundo o l√©xico mais actual). √Č um partido sem identidade, que parece procur√°-la a todo o instante, mas tem receio de assumir o que quer que seja. O eterno apelo e apego pelo poder, naquilo que considera ser um des√≠gnio nacional, arrasta-o consecutivamente para uma espiral de deriva ideol√≥gica, em que conta mais o pragmatismo duma alternativa sem fim nem resultados significantes do que uma verdadeira corrente de pensamento socialista.

No caso do Partido Social Democrata (PSD), que come√ßou por ser Partido Popular Democr√°tico (PPD), fundado a 6 de Maio de 1974, a sua matriz assenta naturalmente na Social-democracia, tendo tido como seu primeiro Secret√°rio-geral, Francisco S√° Carneiro, um ex-deputado da anterior Ac√ß√£o Nacional Popular, l√≠der da Ala Liberal da Assembleia Nacional, que constitu√≠a j√° um embri√£o duma oposi√ß√£o parlamentar, que uma certa abertura do Presidente do Conselho de Ministros, Marcelo Caetano, vinha permitindo durante a chamada Primavera Marcelista. O PPD, mais tarde PSD, teve sempre como refer√™ncia os ideais da Social-democracia do norte da Europa e uma forte liga√ß√£o e apoio internos, por parte das popula√ß√Ķes campesinas do norte de Portugal, bem assim como do sector dos pequenos empres√°rios, que viam no PSD a melhor defesa para a iniciativa privada. A sua r√°pida ascens√£o no espectro partid√°rio portugu√™s, colocou-o definitivamente no malfadado arco da governa√ß√£o, onde todas as ideologias s√£o cilindradas, Da√≠ at√© a uma completa derrapagem ideol√≥gica, foi um simples passo. Afastados os chamados bar√Ķes do PSD, quer por vontade pr√≥pria de gozarem um crep√ļsculo pol√≠tico mais descansado, quer por outras manobras de guerra do poder, manobras essas em que este partido sempre foi um ex√≠mio manipulador, e como resposta a um exerc√≠cio de poder t√£o autorit√°rio quanto alucinante, por parte do PS, na pessoa de Jos√© S√≥crates, emerge finalmente a fina flor da Jota social-democrata, que pelo caminho j√° se libertara desse aborrecido espartilho ideol√≥gico e agora surgia em todo o esplendor de um neo-liberalismo agressivo, cruel e sem d√≥. Pedro Passos Coelho, um dos delfins do PSD, protegido de √āngelo Correia e √† sua imagem moldado, surge, no entanto, numa vers√£o tipo andr√≥ide da nova pol√≠tica de combate ao estado social e a tudo o que signifique uma protec√ß√£o, por ele considerada exagerada, a todas as camadas da popula√ß√£o. A sua liga√ß√£o a √āngelo Correia parece j√° ferida de morte, quando este √ļltimo o considera agora incompetente para governar. √Č assim como o pequeno monstro criado em laborat√≥rio, que √†s tantas quebrou as amarras, saiu da proveta onde apenas era um teste e por a√≠ circula impar√°vel e destrutivo, ainda por cima com as r√©deas do poder nas m√£os. Na sua vis√£o, apenas os grandes grupos financeiros, porque geradores de riqueza, merecem a sua protec√ß√£o, muitas vezes confundida com submiss√£o e isto, n√£o numa perspectiva de reparti√ß√£o dos seus lucros, mas antes numa linha de engrandecimento da riqueza desses grupos, assente naquilo que ele considera ser a justi√ßa do empobrecimento das popula√ß√Ķes, que se habituaram a viver acima das suas possibilidades.

O drama de tudo isto, √© que, sendo t√£o diminutas as diferen√ßas entre a pr√°tica pseudo social-democrata do PS e o neo-liberalismo desenfreado e louco do PSD, o arco da governa√ß√£o passou a ser um arco de fogo, onde tudo √† sua volta √© pass√≠vel de arder, arrastando na sua voraz crepita√ß√£o, as institui√ß√Ķes e o que resta de um estado social em que as pessoas acreditaram e √† volta do qual ergueram os seus sonhos e projectos. A altern√Ęncia assim criada ao n√≠vel do poder, matou a possibilidade de exist√™ncia de alternativas e de solu√ß√Ķes novas, pois nenhum dos dois protagonistas, PS e PSD, abandonam a sua sanha impar√°vel de governar por governar e n√£o governar para resolver os verdadeiros problemas do pa√≠s. S√£o dois monstros em luta constante pela supremacia do nada.

√Č verdade que existem mais partidos no espectro partid√°rio portugu√™s. O CDS-PP constituiu-se como o partido t√°xi do sistema, que tanto d√° boleia a um como a outro, dependendo das necessidades do momento. Quanto aos chamados partidos de esquerda, o PCP e o BE, a sua consecutiva persist√™ncia em se manterem fieis a um m√≠nimo de ideologia, factor que os distingue dos demais, n√£o os coloca como candidatos a qualquer tipo de coliga√ß√£o. Mas esta coliga√ß√£o, a ser considerada, apenas poderia ter como elemento aglutinador, o PS. Ora o PS est√° possu√≠do pela febre do poder e por uma f√© sem dimens√£o de que h√°-de conseguir levar a √°gua ao seu moinho, sem a ajuda de partidos que ele considera aventureiristas e fora da realidade da Europa. Uma Europa que ningu√©m verdadeiramente sabe para onde vai, mas que se sabe estar numa completa deriva de objectivos sociais e pol√≠ticos, auto alimentando-se apenas de produtos econ√≥micos e financeiros.

√Č este o cen√°rio dram√°tico que temos. Porque geralmente, depois de sucessivas derrapagens, vem o desastre total. O embate. O despiste. O muro ou o precip√≠cio. O caos. E mesmo quando h√° sobreviventes, o mais certo √© ficarem estropiados. N√≥s todos!…

Por Ernani Balsa
“escreve sem acordo ortogr√°fico”

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