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DIFICULDADE DE ESCOLHA

Ernani Balsa

Acredito piamente que, de entre aqueles que se disponibilizam para ler estes meus escritos, alguns se interroguem se eu não encontro nada de bom para comentar ou se não encontro outros temas mais líricos ou leves para exercitar este meu impulso de verter em prosa aquilo que me vai na alma. A esses poderei responder que nada mais me agradaria, porque gostando de escrever e transmitir o que penso, dedicando grande atenção à condição humana e a tudo o que envolve as vidas e histórias das pessoas, o seu enquadramento na sociedade e as tristezas e alegrias que fazem parte duma vida normal, bem melhor me sentiria se encontrasse disponibilidade para me debruçar sobre temas menos violentos ou ingratos. Simplesmente, o que acontece é que a vida que se vive não é normal. Pelo contrário, é uma vida, ela própria ingrata e difícil, violenta e ameaçadora, uma vida sem sol, sem esperança, sem justiça e com muita, mas mesmo muita, desigualdade que afecta despudoradamente uma maioria sem meios para reagir, enquanto brilha e beneficia vergonhosamente uma minoria, cada vez mais rica, mais sobranceira e mais indiferente às dificuldades de quem vive no outro lado da vida.

A dificuldade está na escolha daquilo que cada semana irei abordar, tal a amplitude e variedade de anormalidades que se torna urgente proclamar, de injustiças que importa denunciar, de indignações impossíveis de ocultar e de maus carácteres  e atentados à dignidade humana que não têm razão de existir, nomeadamente quando vindos de pessoas, que deveriam ter como paradigma a responsabilidade e o respeito pela pátria que dizem representar.

Tomemos como exemplo o verdadeiro atentado que é a questão dos cortes nas pensões dos pensionistas da Caixa Geral de Aposentações (CGA), pretensamente tidos como uma exigência de convergência com os restantes pensionistas do Centro Nacional de Pensões da Segurança Social. Feridos, desde logo, duma inconstitucionalidade previsível, constituem. não só uma ameaça latente, como um rastilho da mais completa confusão. Ninguém percebe ao certo aquilo que lhes poderá acontecer, como se as pessoas fossem uma mera variável nos macrocálculos feitos pelos macrocéfalos da economia no poder. Desde há anos, a legislação no campo das reformas, já sofreu tantas alterações que ninguém de mediana e mesmo superior inteligência, longínqua daquela que bafejou os técnicos, assessores, secretários-de-estado e ministros do governo, conseguem decifrar seja o que for nesta matéria. Por outro lado, nunca ninguém viu ou ouviu nenhum responsável governativo a explicar com linguagem estendível pela generalidade dos pensionistas, as contas destes verdadeiros malabarismos financeiros, que pudessem dar uma ideia às pessoas sobre o que elas irão ou não perder nas suas já depauperadas pensões. Devem certamente pensar que isso não lhes compete, eles estão lá para pensar e executar programas ultra complexos e responsáveis e não para servirem de amas sêcas a velhos rabugentos e teimosos, que insistem em viver depois do seu prazo de validade. Deixam então essa tarefa à comunicação social e a economistas, cada um com a sua interpretação, o que ajuda a multiplicar a confusão e a construir cenários tão diversos, que as pessoas se cansam e deixam de pensar nisso, refugiando-se em silêncios, depressões, tristezas e abandono de qualquer gosto de viver. E oh!… como isso lhes convém!… Oh! como agrada aos tecnocratas do empobrecimento o alheamento que cresce entre o povo, o entorpecimento pelo cansaço de se sentirem cada vez mais pobres…

E aqui reside outro dos enganos desta classe torpe e nojenta. O entorpecimento pode ser uma realidade, mas não significa que as pessoas tenham desistido de serem felizes, no mínimo, de lutarem pelas oportunidades que sucessivamente lhes têm sido roubadas. Essa consciencialização pode surgir em qualquer momento, mesmo nos limites da indigência e na derradeira fronteira da dignidade humana, naquele patamar já inseguro em que nada já conta e tudo merece ser arriscado, em que tudo já se perdeu, menos o último esgar de instinto de sobrevivência e de sede de vingança. Aí, a um passo apenas, sem qualquer requisito de legalidade, reside a violência, a desobediência civil nos seus extremos, a cegueira de tantos atentados sofridos nos seus direitos e na sua dignidade.

Parece que por enquanto, o poder se comporta como aqueles jovens aparentemente corajosos que, confiantes na sua ligeireza de gestos e de agilidade na fuga, provocam as bestas nas largadas de touros, resguardados pelas tábuas e abrigos e mesmo pelas multidões que entre eles se interpõem, numa atitude cobarde e de fanfarronice. Acreditam eles que a sua coragem no desafio e na interpelação dos touros com lirismos de sabor marialva, não serão suficientes para que as bestas reajam selvaticamente e os derrubem sem apelo nem agravo e os trespassem com patas e chifres, indiferentes aos estragos causados em tão nobres e ousados provocadores. Pensam eles que mesmo provocando e clamando pela violência, chegando mesmo a considerá-la cobarde e sem legalidade para se impor, esta nunca será de tal gravidade que os possa amedrontar.

Pois, é bom que comecem a reflectir, porque a violência não está dependente de decretos ou portarias, nem assenta nos conceitos de legalidade que eles aprenderam nas licenciaturas, mestrados ou MBAs e muito menos é passível de vir incluída, como variável, nas fórmulas mais complexas e nos algoritmos das suas folhas de Excel. A violência é uma realidade e o facto dela não se fazer anunciar, não lhe retira toda a sua carga de perigosidade e devastação. A violência tende a ser cega no seu grau de execução, mas raramente deixa de ser selectiva no alvo a atingir. E quando se declara, ela vem inevitavelmente ferida de toda uma carga de legitimidade que nem merece ser discutida, porque não se discute a raiva e os limites de tolerância de quem foi sistematicamente espezinhado por poderes que também não discutem os seus dogmas, os seus pragmatismos e as suas crenças filosófico-financeiras.

Eu sei que este meu discurso vai também ser classificado nos apelos à violência, que agora estão tão em voga, mas nada me pesa na consciência, porque tudo o que aqui se diz tem uma razão de ser. Quem semeia ventos, colhe tempestades. É o povo que o diz!… Por isso, talvez, a violência com que se tenta matar o mensageiro, neste e noutros casos… O Povo!…

Por: Ernani Balsa
“escreve sem o acordo ortográfico”

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