DOS “EMPATA BODAS” AOS “MATA GREVES” …

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Ernani Balsa

Ernani Balsa

Tinha pensado em dedicar esta crónica apenas a um tema que tinha a ver com o que se passou no passado fim-de-semana, por alturas da comemoração do 2º aniversário duma prestigiada sociedade recreativa, mas outro tema se interpôs entretanto, que considero mais relevante e mais digno de alguma atenção e algumas considerações.
Não abandono, porém, a efeméride aniversariante acima referida, porque ela merece também algumas palavras. Para comemorar condignamente o trabalho realizado ao longo destes dois anos, a “Sociedade Recreativa e Excursionista Governo de Portugal (SREGP)” organizou um passeio a Alcobaça, com almoço e tertúlia. Para se deslocarem e tornarem a viagem menos onerosa aos cofres da colectividade, em vez de alugarem um autocarro, como geralmente acontece neste tipo de agremiações, decidiram ir cada um na sua viatura, para que a despesa fosse menor. Um autocarro daria muito nas vistas e poderia ser considerado um gasto supérfluo aos olhos da cambada de sócios, que evidentemente, não tinham entrada no evento.
Tratando-se dum grupo de notáveis pertencentes aos corpos sociais da SREGP, as autoridades policiais trataram de tudo para que os convivas chegassem ao local marcado, com a maior celeridade e livres de impedimentos de tráfego. O Estado gosta de proporcionar aos membros das colectividades do país, estes mimos, mas temos que aceitar que nem sempre tudo corre bem. Acontece que para a mesma hora de chegada dos dignos responsáveis da SREGP, estaria agendada uma cerimónia, esta de somenos importância, a ter lugar precisamente no mesmo Mosteiro de Alcobaça, onde os eméritos excursionistas tinham decidido celebrar aquela data importantíssima. Tratava-se dum vulgar casamento agendado para a mesma hora. Ora as autoridades presentes nem hesitaram e de imediato barraram a passagem aos noivos e provavelmente à sua comitiva, dando espaço e privacidade aos já referidos excursionistas, para saírem das suas viaturas e tomarem lugar no interior da Real Abadia, tudo dentro da pompa e compostura exigíveis ao evento.
Não sei bem se antes ou depois do repasto, que julgo tenha sido regado com excelso vinho da região, teve lugar a tertúlia, cujo ponto forte e antecipadamente anunciado, seria um tal guião sobre a reforma da colectividade, a apresentar pelo responsável das relações exteriores. Segundo fontes geralmente bem informadas o guião não estaria presente, ou se estava não terá sido disponibilizado a todos os convivas, pelo que o Presidente da SREGP terá ficado algo desiludido e defraudado, porque assim sendo nada teria de relevo para anunciar no final da reunião. Enfim, são assuntos internos desta honrada “Sociedade Recreativa e Excursionista Governo de Portugal”, pelo que aqui me inibo de tecer mais considerações e deixo apenas os factos.
Duma coisa, no entanto, não se pode furtar este grupo excursionista, que é o de terem ficado conhecidos como os “Empata Bodas”!…
Agora num registo mais sério, diria, mesmo sério, permito-me tecer algumas considerações sobre a Greve Geral que teve lugar na passada Quinta-feira, dia 27 de Junho.
Uma greve é uma greve, ponto final. Destina-se a mostrar descontentamento, indignação e combate. Significa que antes dela, muitas outras acções levadas a cabo por quem luta por melhores condições de vida, não resultaram. Mas, primeiro ponto assente, sendo uma greve geral, não significa que o país pare. Significa, tão só, que se estende a todo o país e é generalizada a todos os sectores que a ela adiram. Uma greve geral não é o coma de um país por um dia, portanto, vir o governo orgulhosamente declarar que o país não tinha parado, é não só extemporâneo, como absurdo. Por outro lado, são já habituais as queixas de certos sectores de que as greves prejudicam as vidas das pessoas. É certo que prejudicam, primeiro que tudo, prejudicam os próprios aderentes à greve que perdem um dia do seu salário e depois, colateralmente prejudicam muitos outros, mas tal é inevitável. Sendo um combate, é natural que tenha efeitos colaterais. Convém, no entanto, compreender que a sociedade tem de ter escapes para a sua indignação e revolta, que não só sirvam de sinais e avisos dirigidos ao poder, como para escoar todo o mal-estar acumulado, sem recurso à violência ou a outros métodos mais reprováveis e perigosos. Trata-se do exercício da democracia e por isso é que a greve é um direito constitucionalmente reconhecido e como tal deve ser usado.
Por outro lado, quem acusa as greves de não serem solução, geralmente acusa também os sindicatos de serem os culpados de tudo, inclusive de serem manipulados e condicionados pelos partidos. Convém porém reconhecer que uma greve sem a coordenação dos sindicatos, seria uma greve selvagem, sem regras nem segurança, e em última instância, sem objectivos concretos, uma vez que não haveria coordenação. Por outro lado, é inevitável a influência dos partidos, uma vez que eles fazem parte do nosso sistema político democrático. Se os partidos se constituem de pessoas e ao mesmo tempo as influenciam e os sindicatos também, como seria possível que não houvesse vasos comunicantes entre todas estas estruturas? O que seria preocupante seria generalizar-se o conceito de greves sem organização nos seus bastidores. Ou aceitar que os sindicatos sofressem influências, sem se saber de quem. Não é proveitoso nem desejável promover-se a total e inatingível independência de todo ou qualquer movimento político ou acção, deixando espaço aberto para manobras de infiltrações encapotadas daqueles a quem essa falta de identificação na conduta das greves, obviamente favoreceria nos seus obscuros intentos.
Quanto ao governo, só lhe fica mal vir hipocritamente declarar que respeita a greve, porque isso é um absurdo, uma vez que estando a greve consagrada na lei da Constituição, como um direito e tendo o Governo jurado defender a Constituição, não lhe resta alternativa. Mas o governo gosta de dizer banalidades e vem também dizer, pela boca do Primeiro-ministro, que embora a greve seja um direito, o país precisa mais de trabalho e menos de greves. Ora acontece que o trabalho também é um direito protegido pela Constituição, mas o governo não o promove nem cria condições para que o flagelo do desemprego deixe de atingir índices impensáveis. Portanto, onde é que ficamos?…
A título de fecho para estas reflexões, há também quem argumente que as greves são um direito, mas seria preferível não o exercer. A solução seria portanto, matar as greves, como instrumento de combate ao serviço dos trabalhadores, embora permitindo que ela simbolicamente permanecesse na Constituição. Já agora, o mesmo princípio se poderia adoptar quanto às eleições, outro dos instrumentos vitais à manutenção e exercício da democracia. Para quê fazer uso dum instrumento que no final de contas elege sempre os mesmos? Matem-se também as eleições! Isso sim, seria o paraíso para alguns… Melhor ainda, greve às eleições!…
Como seria simpático, progressista e desenvolvido um país feito à medida de tantas ideias brilhantes que andam por aí desperdiçadas!…
Por: Ernani Balsa
“escreve sem o acordo ortográfico”

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