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Erradicação das hepatites, ambição que inquieta

Erradicação das hepatites, ambição que inquieta

A hepatite √© uma inflama√ß√£o do f√≠gado causada por diversos v√≠rus e agentes n√£o infeciosos que originam v√°rios problemas de sa√ļde, alguns dos quais podem ser fatais. Existem cinco tipos principais de v√≠rus da hepatite (A, B, C, D e E) e embora todos eles possam causar doen√ßa hep√°tica diferem entre si nos modos de transmiss√£o, gravidade da doen√ßa, distribui√ß√£o geogr√°fica e m√©todos de preven√ß√£o. De forma particular as hepatites B e C podem levar a doen√ßa cr√≥nica, muitas vezes assintom√°tica, em centenas de milh√Ķes de pessoas em todo o mundo, e juntas s√£o a causa mais importante de cirrose hep√°tica, cancro do f√≠gado e morte relacionada com a hepatite viral.

No dia 28 de julho celebra-se o Dia Mundial das Hepatites em homenagem ao cientista Pr√©mio Nobel da Medicina, Dr. Baruch Blumberg, nascido neste dia, que descobriu o v√≠rus da hepatite B e desenvolveu um teste diagn√≥stico e vacina contra ele. Simbolicamente nesta data unem-se esfor√ßos para sensibilizar a comunidade internacional para este problema e incentivar a tomada de medidas que envolvam os doentes e o p√ļblico em geral. Estima-se que 354 milh√Ķes de pessoas em todo o mundo vivam com hepatite B ou C, para a maioria das quais os testes e o tratamento permanecem ainda, e infelizmente, fora de alcance. De modo a uniformizar procedimentos e a normalizar as abordagens de sa√ļde no combate a este flagelo a n√≠vel global, a Organiza√ß√£o Mundial de Sa√ļde (OMS) emite regularmente orienta√ß√Ķes que visam a elimina√ß√£o das hepatites v√≠ricas como problema de sa√ļde p√ļblica at√© 2030, reconhecendo, no entanto, as especificidades de cada regi√£o na abordagem desta tem√°tica.

Em Portugal dispomos, para a hepatite B, de vacina√ß√£o, h√° muito tempo inclu√≠da no Plano Nacional de Vacina√ß√£o. Para a hepatite C o problema √© mais complexo uma vez que n√£o dispomos de vacina√ß√£o, restando apenas a evic√ß√£o dos comportamentos de risco para a transmiss√£o da infe√ß√£o e a identifica√ß√£o de doentes por testagem e subsequente tratamento, para o controlo da infe√ß√£o. Relativamente ao tratamento, o nosso pa√≠s removeu algumas restri√ß√Ķes ao tratamento da hepatite C, embora mantenha outras, respons√°veis por alguma entropia no sistema. Desde 2015, ano em que se iniciou o tratamento da hepatite C com antivirais de a√ß√£o direta em Portugal, foram autorizados mais de 30.000 tratamentos dos quais mais de 28.000 doentes j√° o iniciaram. Apesar da elevada efic√°cia do tratamento, que ronda os 97% de taxa de cura, ter√£o de ser dados passos adicionais, nomeadamente uma maior consciencializa√ß√£o sobre a hepatite na comunidade, o aumento do n√≠vel de testagem nos adultos e a dinamiza√ß√£o de programas de micro-elimina√ß√£o em popula√ß√Ķes chave, para que o controlo da doen√ßa seja uma realidade.

A pandemia criou in√ļmeros constrangimentos √† concretiza√ß√£o do objetivo final de erradica√ß√£o que urge ultrapassar. A prioridade neste momento √© a recupera√ß√£o do tempo perdido e para que isso seja poss√≠vel √© imprescind√≠vel o envolvimento e empenho dos decisores pol√≠ticos. Torna-se imperativo o apoio a programas de erradica√ß√£o que incluam medidas preventivas, o refor√ßo do rastreio, realizando-o de forma sistem√°tica e organizada, a despistagem pelo menos uma vez na vida das hepatites v√≠ricas na popula√ß√£o n√£o inclu√≠da em grupos de risco e a agiliza√ß√£o da disponibilidade dos tratamentos a todos os casos identificados.

Todos os anos nesta data a comunica√ß√£o social √© inundada com in√ļmeros artigos de opini√£o sobre o tema das hepatites, que incluem, de forma reiterada, a identifica√ß√£o dos problemas e a proposta de solu√ß√Ķes. E a ideia que transparece √© que de ano para ano pouco progredimos apesar de sabermos o que temos de fazer. Falta pragmatismo nas nossas ideias e organiza√ß√£o no m√©todo ‚Äď penso serem estes os grandes desafios da atualidade. Deixava aqui um repto e mesmo um desejo: que a tem√°tica das hepatites n√£o seja exclusiva do m√™s de julho, mas que a sua erradica√ß√£o seja uma ambi√ß√£o que nos inquiete todos os meses do ano.

Paulo Carrola
Coordenador do N√ļcleo de Estudo das Doen√ßas do F√≠gado da SPMI

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