ERRO FATAL

J.Antunes de Sousa

J.Antunes de Sousa

Merece que dele falemos porque, tratando-se de algu√©m, como M√°rio Soares, que t√£o importante papel desempenhou na hist√≥ria recente de Portugal, a pergunta que, inevit√°vel, surge √© o que se ter√° passado, o que √© que ter√° corrido mal para t√£o severa reprimenda ter recebido nas urnas. Resposta? Ela aqui vai: um desencontro essencial com o tempo. Soares, ao inventar uma vers√£o p√≥stuma de si mesmo, foi como morto que se apresentou ‚Äď e ningu√©m est√° para votar em mortos. Mas vejamos.

H√°, em todo este triste epis√≥dio, uma sucess√£o graduada de erros. Comecemos pelos menores. Desde logo, a forma √°vida, pressurosa e extempor√Ęnea como se chegou √† frente, numa l√≥gica de pura avidez e visando marcar uma presen√ßa que, ingenuamente, acreditou fosse suficiente para intimidar o candidato apontado como favorito. E bem sabemos como a pressa e a avidez s√£o p√©ssimas companhias. Depois, o tom quase retaliativo, de resson√Ęncia narc√≠sica, que deu √† sua decis√£o: ‚Äúsou o √ļnico capaz de evitar o passeio triunfal do Professor Cavaco‚ÄĚ. E se passeio n√£o foi propriamente a vit√≥ria de Cavaco Silva, n√£o foi a M√°rio Soares que tal se deveu, mas a um outro que, contra o erro crasso de um regresso em falso se apresentou, enterrando, nesta disputa obscena e desnecess√°ria, uma amizade de d√©cadas.

Em pol√≠tica parece ser perigoso e arriscado regressar aonde se teve sucesso. Como no futebol ‚Äď por isso √© que Jos√© Mourinho n√£o vai regressar nunca ao FCPorto. Este um erro que a mera observa√ß√£o estat√≠stica teria ajudado a prevenir.

Um outro erro, ditado pela inadvert√™ncia e pela deficiente interpreta√ß√£o da alma agastada dos portugueses, foi o de n√£o ter previsto a reac√ß√£o que a tentativa de regresso ao bem-bom da cadeira presidencial desencadearia ‚Äď a de inveja. E a inveja √© impiedosa, como se sabe. Ali√°s, M√°rio Soares, insistindo neste erro de an√°lise, passou o tempo todo a sublinhar a ‚Äúinactividade‚ÄĚ e a ‚Äúimpot√™ncia‚ÄĚ do Presidente da Rep√ļblica. Este facto s√≥ veio real√ßar a imagem de algu√©m que se pela por altos cargos, numa l√≥gica de puro deleite pessoal e vol√ļpia. Mais: insistir na falta de poder do Presidente da Rep√ļblica, foi, uma vez mais, ir contra os sinais do tempo: os portugueses o que querem mesmo √© um Presidente que mande. Querem obras e ac√ß√£o ‚Äď chega de conversa.

A imagem diletante de um viciado na política encaixa mal no clima de emergência que reclama, antes, a atitude ascética, quase sofrida, do dever, do serviço, atitude que o candidato vencedor pareceu, repito, pareceu encarnar na perfeição.

M√°rio Soares cometeu ainda o importante erro de sobrevalorizar o fasc√≠nio, que julgou irresist√≠vel, da sua figura hist√≥rica, insinuando-se como inst√Ęncia de apelo da pr√≥pria P√°tria. Mas a√≠ exactamente o seu engano: ou Portugal est√° bem e, n√£o precisando propriamente de um salvador, qualquer um pode ser Presidente da Rep√ļblica, sem necessidade de um novo ‚Äúsacrif√≠cio‚ÄĚ de M√°rio Soares, ou est√° aflito, como √© o caso, e precisa mesmo de um salvador ‚Äď exactamente aquilo que n√£o se acredita que ele possa ser.

E alguns erros mais poder√≠amos recordar aqui, entre os quais esse, palmar, de querer combater uma candidatura, a de Cavaco, alicer√ßada na aura pessoal, bem para l√° do apoio oficial de partidos, aparecendo t√£o marcada e ostensivamente identificado com o partido socialista. e dele claramente dependente. Ou aquele outro, o de diabolizar sistematicamente o candidato que se sabia incarnar boa parte das esperan√ßas dos portugueses. Tudo, por√©m, erros de c√°lculo e, por isso, menores, quando comparados com esse erro essencial ‚Äď o da reincarna√ß√£o. Explico-me.

Para n√≥s, M√°rio Soares era assunto arrumado e bem arrumado, por sinal, no sossego do nosso cora√ß√£o. Ele estava j√° arredondado em mito no remanso da nossa mem√≥ria. E bem sabemos como a morte √© o aliado privilegiado do mito ‚Äď √© atrav√©s dela que este se fixa. E M√°rio Soares, n√£o tendo ainda morrido de facto, era como se √† morte tivesse superado j√° e se houvesse acolhido no Olimpo da nossa colectiva venera√ß√£o. Ele estava j√° desincarnado da temporalidade, nesse cimo pairante donde nos contemplava em paz com a hist√≥ria., quando, imprevistamente e em sobressalto, decidiu reincarnar e regressar ao tr√©pido enxovalhante da nossa quotidianidade, misturando-se com os fantasmas de que ele, a seu tempo e de forma privilegiada, se libertara j√°. Decidindo reeditar postumamente um cap√≠tulo de uma vida que j√° nos anais dourados da hist√≥ria se fixara, ele arrancou-se ao aconchego beat√≠fico dos vencedores e precipitou-se no tumulto de um tempo que j√° o n√£o reconhece. √Č um equ√≠voco tr√°gico, um erro fatal. Porque os vivos n√£o apreciam o regresso dos mortos ‚Äď e pela raz√£o simples de que sabem que √© s√≥ o fantasma deles o que regressa.

Os portugueses, contrariamente ao que se diz, n√£o vivem na √Ęnsia de um regresso seb√°stico – desejam e veneram D. Sebasti√£o s√≥ e na exacta medida em que sabem que ele n√£o regressar√° nunca.

PS: Eu sei que os meus queridos leitores j√° deram por isso: este texto foi escrito a 25 de Janeiro de 2006, aquando da sua ser√īdia candidatura √† Presid√™ncia da Rep√ļblica. Mas far-me-√£o a justi√ßa de concordar que tudo o que ent√£o aqui escrevi sobre M√°rio Soares mantem a sua actualidade, agora certamente renovada pelos seus mais recentes del√≠rios populistas. J√° em rela√ß√£o a Cavaco tenho que ser mais humilde e reconhecer que fui bastante indulgente: a pergunta que me ocorre √© como √© que ca√≠mos nesta uma segunda vez?!

Por: José Antunes de Sousa
“escreve sem o acordo ortogr√°fico”

Partilhe:

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

*

Comment moderation is enabled. Your comment may take some time to appear.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como s√£o processados os dados dos coment√°rios.