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Luis Manuel, o artista que desafia o regime cubano
Luis Manuel Otero Alc√°ntara entrevistado pelo jornalista independente 'Ivan Garcia' em agosto de 2019

Luis Manuel, o artista que desafia o regime cubano

Lu√≠s Manuel Otero Alc√°ntara √© atualmente mais um preso pol√≠tico em Cuba, submetido a um conjunto de vicissitudes e maus tratos, numa das mais terr√≠veis pris√Ķes pol√≠ticas cubanas (a pris√£o de seguran√ßa m√°xima de Guanajay), com o objetivo de o vergar politicamente ou t√£o somente, lev√°-lo a por fim √† vida por cansa√ßo e sofrimento, √† semelhan√ßa do que j√° aconteceu com outros como √© exemplo ‘Orlando Zapata Tamayo‘, que morreu em greve de fome, numa dessas pris√Ķes do regime cubano.

O artigo que transcrevemos a seguir, √© da autoria de ‘Ivan Garcia’, jornalista independente que publica em e ‘Desde La Habana’, relatos das persegui√ß√Ķes pol√≠ticas, das a√ß√Ķes repressivas da ditadura comunista, para quem o povo cubano n√£o tem quaisquer direitos, qualidade de vida, ou independ√™ncia cultural.

Na quinta-feira, 7 de abril, diz um preso, que depois que um familiar ter informado Luís Manuel Otero Alcántara, que o ministério publico pedia uma condenação de sete anos de prisão, ele  ficou em silêncio durante cerca de dez segundos, fez um gesto de desaprovação com a cabeça e depois de desligar o telefone, ao chegar à cela, deitou-se silencioso sobre o beliche.

Desde 11 de julho de 2021, h√° nove meses, que o artista dissidente est√° na pris√£o de seguran√ßa m√°xima de Guanajay, prov√≠ncia de Artemisa, 45 quil√īmetros a oeste de Havana, acusado pelo regime cubano de supostos crimes de instiga√ß√£o ao crime, desacato agravado e desordem p√ļblica. Luis Manuel tamb√©m √© acusado de indigna√ß√£o contra os s√≠mbolos nacionais, um processo aberto desde 2020 devido √† sua obra ‘Le drapeau’, uma performance em que ele usava uma bandeira cubana abra√ßada ao corpo.

O prisioneiro comum (que passa a informa√ß√£o) destaca que as condi√ß√Ķes na penitenci√°ria s√£o ‚Äúsimplesmente aterradoras. A medida para servir o arroz √© uma colher m√©dia. Arroz sujo com um gosto muito ruim. Duas vezes por semana eles d√£o-nos um caldo sem gra√ßa e aguado que dizem ser feij√£o preto. Um peda√ßo de batata-doce cozida, √†s vezes meio ovo cozido e quando se lembram, um fricass√© ‚Äč‚Äčde frango que √© mais ossos e pele do que qualquer outra coisa‚ÄĚ.

Segundo este prisioneiro, Lu√≠s Manuel Otero √© uma personagem do pres√≠dio. “Um cara que ajuda a todos. Os guardas prisionais tentaram colocar-nos contra ele em troca de privil√©gios como trabalhar na cozinha ou ter um ‘pabell√≥n’ extra (nas pris√Ķes cubanas chamam ‘pabell√≥n’ √† visita √≠ntima conjugal, em Espanha eles chamam-lhe ‘vis a vis’). Mas muito poucos se prestam a isso. A maioria de n√≥s, presos somos comuns, reconhecemos que o artista √© um prisioneiro do governo e por isso eles o atacam impiedosamente“.

Uma fonte cred√≠vel assegura que a sa√ļde de Lu√≠s Manuel n√£o √© boa. ‚ÄúEle est√° muito magro como resultado dos repetidos per√≠odos de fome volunt√°ria, da terr√≠vel e m√° nutri√ß√£o da pris√£o e dos altos n√≠veis de stress a que foi submetido nos √ļltimos quatro anos. Fisicamente podemos observar o agravamento de les√Ķes psicossom√°ticas como psor√≠ase nas m√£os e cotovelos e dermatite seborreica no couro cabeludo“.

Este prisioneiro tamb√©m destaca que Otero comentou que durante a √ļltima greve de fome, em janeiro-fevereiro de 2022, como protesto contra sua pris√£o injusta e viola√ß√£o de seus direitos humanos como cidad√£o e artista, sofreu uma esp√©cie de paralisia do lado direito, embora n√£o observado, bem como perda de vis√£o no olho direito devido √† presen√ßa de uma √°rea escura em seu campo visual, situa√ß√£o que sugere poss√≠vel dano neurol√≥gico que deveria ter sido avaliado e tratado por especialistas em neurologia e oftalmologia.

‚ÄúA n√≠vel emocional, Luis Manuel apresenta altos n√≠veis de ansiedade e ang√ļstia em rela√ß√£o ao seu futuro na pris√£o. Mas reitera sua posi√ß√£o de n√£o deixar o pa√≠s sob nenhuma press√£o e continuar seu ativismo pol√≠tico e social em favor de uma mudan√ßa pol√≠tica democr√°tica em Cuba desde a pris√£o‚ÄĚ, afirma a fonte. E esclarece que apesar do seu fr√°gil estado de sa√ļde, “Otero est√° de bom humor, continua a ser um homem jovial, convicto da sua inoc√™ncia e muito motivado pelos pr√©mios e outros reconhecimentos internacionais pelo seu trabalho art√≠stico“.

Por outro lado, sabe-se que o julgamento de Lu√≠s Manuel, a quem a acusa√ß√£o pede sete anos de pris√£o, est√° marcado para o pr√≥ximo m√™s de maio e que o seu processo √© o n.¬ļ 24 de 2022. No mesmo dia o m√ļsico Maykel Osorbo seria processado, com um pedido de imposto de dez anos, e outros tr√™s cidad√£os.

Luis Manuel Otero Alc√°ntara √© o l√≠der do Movimento San Isidro (MSI), um coletivo art√≠stico criado em Havana em 2018 em resposta a um pol√™mico parecer oficial, o decreto-lei 349, que regulamenta o trabalho dos artistas. O MSI foi ferozmente reprimido em 2020 e 2021 pela ditadura militar castrista. Em particular, Otero Alc√°ntara, seu l√≠der, acusado de m√ļltiplos crimes e que foi detido pela pol√≠cia pol√≠tica mais de sessenta vezes.

Luisma, como seus parentes a chamam, nasceu em 2 de dezembro de 1987 no bairro pobre e predominantemente mesti√ßo de El Pilar, no munic√≠pio de Cerro, em Havana. A vida, marcada pela subsist√™ncia, parece tirada de um romance sombrio de Pedro Juan Guti√©rrez. Em v√°rias entrevistas que fiz com ele, ele relembrou os apag√Ķes de doze horas em meio ao per√≠odo especial, as panelas cheias de fuligem e o cheiro inconfund√≠vel de detergente vindo da f√°brica Sabat√©s, perto de sua casa.

Otero cresceu num bairro marginal onde o uso de drogas √© comum e as brigas s√£o resolvidas com tiros ou fac√Ķes. Ele foi criado pela m√£e e av√≥ materna, ambas falecidas em 2021, a m√£e Vivian del Carmen em 5 de janeiro e a av√≥ em 23 de maio. Duas perdas irrepar√°veis ‚Äč‚Äčque ainda n√£o foram recuperadas.

Em 2019, Lu√≠s Manuel disse-me que desde crian√ßa, sempre teve inclina√ß√£o para a escultura: ‚ÄúEstava sempre com um peda√ßo de madeira nas m√£os. Minha av√≥ trabalhava na habita√ß√£o, naquela fase em que os cubanos decidiram emigrar, o Estado confiscou as suas propriedades, muitas pessoas lhe deram coisas, roupas usadas ou eletrodom√©sticos. Ent√£o t√≠nhamos uma m√°quina de lavar. Mas sempre tive falta de sapatos. Eu s√≥ tinha um par, eles estavam quase sempre em muito mau estado. Fui para a escola com botas horr√≠veis ou com kikos de pl√°stico‚ÄĚ. Antes de se dedicar √†s artes pl√°sticas, passou cinco anos treinando como corredor de meio-fundo numa pista de saibro na Ciudad Deportiva.

‚ÄúCorri 1.500 e 5.000 metros planos. Treinou no duro em busca de um prop√≥sito: escapar da pobreza. Mas em uma competi√ß√£o em Santiago de Cuba, apesar de ser favorito, terminei em quarto lugar. Ele n√£o foi programado para perder. Foi ent√£o que decidi estudar escultura e artes visuais‚ÄĚ, relembrou. Numa galeria localizada na Calle 20 de Mayo, em El Cerro, Luis Manuel exp√īs pela primeira vez em 2011. A mostra se chamava “Os her√≥is n√£o pesam”. Foi dedicado aos soldados mutilados na guerra em Angola. Dois anos depois, iniciou o seu ativismo pol√≠tico. ‚ÄúEu tinha muitas perguntas sem resposta. Ele viu que as expectativas da sociedade n√£o foram levadas em conta. Cuba √© um absurdo. Percebi que algo precisava ser feito‚ÄĚ, disse-me Otero na primavera de 2020.

No domingo, 11 de julho, depois que os v√≠deos da manifesta√ß√£o que ocorreu na cidade de San Antonio de los Ba√Īos, prov√≠ncia de Artemisa, depois das duas da tarde, se espalharam como fogo nas redes sociais, antes que o regime cortasse o servi√ßo de internet , em um breve bate-papo no WhatsApp, Luisma me disse: ‚ÄúVou ao Malec√≥n. N√£o posso ficar em casa enquanto as pessoas saem √†s ruas pedindo liberdade.” Foi a √ļltima vez que nos falamos.

Ivan Garcia
Jornalista Independente
in: “Desde La Habana

Foto: Da entrevista que o jornalista independente Iv√°n Garc√≠a fez a Luis Manuel Otero Alc√°ntara em agosto de 2019 na cafeteria El Arca de No√©, em 23 entre E e D, Vedado. Luisma vestia um su√©ter branco que em letras vermelhas dizia N√£o ao Decreto-Lei 249. Nos ombros via-se uma bandeira cubana, que fazia parte de sua performance Le drapeau, pela qual agora tamb√©m querem process√°-lo, por um suposto “ultraje contra os s√≠mbolos patriotas”.

Tradução:

Carlos Moreira
Editor de “Desde la Habana

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