NELSON MANDELA E O DOM DO PERDÃO…

Ernani Balsa

Ernani Balsa

Esta será talvez a crónica mais curta que escreverei aqui nesta minha colaboração semanal. Não porque a pessoa de que quero hoje falar não merecesse um texto à altura da sua enorme dimensão humana, mas porque não conseguiria juntar tantas palavras de verdadeiro conteúdo e significado inatacável num texto que pudesse traduzir a elevação da admiração que tenho por Nelson Mandela.

Mandela faz parte da minha própria construção como homem e cidadão. Desde que se tornou uma figura com estatuto reconhecido a nível internacional, mesmo durante os longos anos da sua clausura nas prisões do regime do apartheid, Mandela foi a pouco e pouco entrando nas vidas de milhões de pessoas. Todos os que se preocupavam com a injustiça e a violência dos regimes coloniais, segregacionistas e de desrespeito pela condição humana, terão reconhecido naquele homem um símbolo de resistência, mas esse carimbo da sua indelével personalidade foi ganhando uma dimensão cada vez mais única, que impressionava pela persistência, pela conduta de uma verticalidade assombrosa e por uma impressionante capacidade de acreditar na vitória que acabaria por chegar, não obstante todas as adversas e tenebrosas condições que o envolviam como um dos presos mais bem guardados do mundo, num regime odioso e insensível a qualquer apelo de perdão.

Mandela esteve preso durante vinte e sete anos e nunca hesitou em se manter íntegro e indefectível na sua determinação de contribuir para a refundação do seu país e para a libertação do seu povo das garras assassinas e absolutamente impiedosas do apartheid. Mas este homem, senhor de uma rara serenidade, tendo em conta a turbulência de vida que levava, a partir do momento em que decidiu tomar como missão, juntamente com os seus correligionários do Conselho Nacional Africano (CNA/ANC), a refundação duma África do Sul livre e com igualdade de direitos para todos os seus cidadãos, independentemente da cor da pele, da etnia ou da religião, era uma figura invulgar. Ao longo de todo o seu cativeiro, quando mais natural seria o transbordar da sua revolta transformada em ódio e sede de vingança, Mandela, pelo contrário, construiu uma muralha de compreensão e desejo de reconciliação entre todos, incluindo aqueles que o perseguiram, condenaram e o mantinham preso.

Foi esta particularidade que o tornou num modelo a seguir. Foi esta sua postura que o guindou a uma condição superior e, para muitos até inexplicável, mas que ele manteve até à hora da própria morte. A capacidade de saber perdoar é um bem que não está ao alcance de qualquer um, somente atingível e exequível por aqueles que vislumbram o futuro e a paz entre os homens como um bem superior a tudo o resto, que tudo explica, que tudo justifica e que tudo vale. A vingança é um sentimento compreensível, mas carregado de ódio, enquanto que o perdão é um sentimento desejável carregado de amor ao próximo. Uma crença na redenção do mal e nas virtudes intocáveis do bem comum. Um dom apenas ao alcance de pessoas excepcionais…

Na hora da sua morte, apenas um silêncio enorme me assaltou e nem as lágrimas, com que muitas vezes me debato estupidamente, me assomaram à profunda tristeza que deveria estar espelhada no meu olhar. Para um homem desta envergadura, apenas reconheço o silêncio como resposta às mil palavras que gostaria de dizer, mas que não seriam nunca suficientes para lhe prestar a homenagem devida.

Não pude, no entanto deixar de recordar alguns pormenores sobre este homem superior e único, ou melhor, sobre o modo como, alguns dos que hoje vertem a hipocrisia dos seus lamentos e homenagens póstumas, agiram enquanto ele ainda era vivo e sofria no cárcere pela sua verticalidade e consistência de princípios. Refiro-me mais concretamente a alguém que nós bem conhecemos, figura proeminente da política portuguesa e no exercício de cargo de soberania no Governo de Portugal, que em 1987, numa votação na Assembleia das Nações Unidas, sobre uma resolução pedindo a solidariedade de todos para com a luta do ANC e a libertação de Nelson Mandela, e perante uma esmagadora maioria de 129 votos a favor, se juntou aos votos contra dos EUA (de Ronald Reagan) e do Reino Unido (de Margaret Thatcher). Decididamente não consigo chegar nem aos calcanhares de um homem da envergadura de Nelson Mandela, que do cimo da sua estatura moral e coragem política, ainda se permitia dar lições de humanidade, elegendo o perdão como a resposta mais consentânea para alcançar aquilo a que sempre se propôs, a libertação do seu povo.

Sou imperfeito, em maior ou menor grau, como a maioria de nós e o dom do perdão engasga-se na dificuldade de esquecer. Resta-me o discernimento suficiente para não trilhar os caminhos da vingança. Alguns outros preferem ser mestres de cerimónia da hipocrisia, e a história, deles nada recordará… Madiba, por certo, já os terá perdoado, mas por isso ele foi quem foi!…

Por: Ernani Balsa
“escreve sem o acordo ortográfico”

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