Home » OPINI√ÉO... » A PESCADINHA DE RABO NA BOCA

A PESCADINHA DE RABO NA BOCA

P.Guedes de Carvalho

P.Guedes de Carvalho

Durante 3 anos participei num projecto de investiga√ß√£o sobre √°reas e regi√Ķes em perda demogr√°fica e decl√≠nio econ√≥mico. O projecto designou-se por DEMOSPIN e foi noticiado hoje na edi√ß√£o do jornal Expresso pois realizou-se a 1¬™ apresenta√ß√£o p√ļblica das suas conclus√Ķes. A sess√£o decorreu no Fund√£o e contou com a presen√ßa de diversas individualidades com responsabilidade de decis√£o de interfer√™ncia nestes problemas. O debate foi prof√≠cuo e o t√≠tulo refere-se a uma das principais dificuldades de resolver o problema.

As regi√Ķes do interior do pa√≠s (de Tr√°s os Montes ao Baixo Alentejo) est√£o em decl√≠nio demogr√°fico desde os anos 60-70 e, por nada ter sido feito para contrariar os efeitos da emigra√ß√£o em massa dessas d√©cadas, encontramo-nos numa situa√ß√£o calamitosa: Mais ainda, se nada se fizer estaremos reduzidos a um quarto da popula√ß√£o em algumas destas regi√Ķes dentro de 17 anos. S√£o regi√Ķes em perda demogr√°fica de jovens e os que regressam nem todos se encontram em idade de procriar. Tal fen√≥meno levanta o problema de saber se as pessoas n√£o s√£o atra√≠das porque nada existe na regi√£o que os atraia ou se as pessoas saem porque n√£o encontram condi√ß√Ķes de vida. Uma emigra√ß√£o diferente esta, pois expulsa os mais jovens e/ou os quadros qualificados. O problema √© nacional mas faz-se sentir com particular nestas regi√Ķes, consideradas das mais dram√°ticas de toda a Europa.

Um segundo tipo de problema que se debateu foi o relacionado com o identificar se a quest√£o √© demogr√°fica ou econ√≥mica de raiz, ou seja, saem porque n√£o h√° empregos ou n√£o v√™m empresas porque n√£o h√° trabalhadores. Estauma das virtualidades do estudo: cruzou pela primeira vez a quest√£o demogr√°fica com a econ√≥mica e procurou obter cen√°rios poss√≠veis de respostas para diversas hip√≥teses (cen√°rios) de taxas de crescimento, desde os piores cen√°rios de decr√©scimo de taxas de produ√ß√£o at√© cen√°rios mais optimistas de taxas ligeiramente superiores √† m√©dia nacional. Pois sim, nenhum deles √© favor√°vel. Contas feitas tra√ßaram-se cen√°rios de o que se deve fazer para estancar ou reverter a situa√ß√£o? E tal implica conseguir atrair/fixar cerca de 11000 jovens por anos durante esses anos. Tarefa herc√ļlea n√£o √©?

Antes de baixarmos completamente os bra√ßos e de cedermos √† eutan√°sia regional, levantaram-se algumas vozes que representavam institui√ß√Ķes regionais e intelligentsia nacional que se dispuseram a fazer alguma coisa. E todos se colocaram tacitamente de acordo que a coisa passava por uma vis√£o nova de modelos de desenvolvimento, assentes na educa√ß√£o e articula√ß√£o de institui√ß√Ķes, numa vis√£o regional comparticipada e de m√ļtuo comprometimento. Tudo tem que ser racionalizado, certamente. Mas n√£o se podem esquecer que esta regi√£o foi a que cedeu os recursos humanos que equilibraram a nossa balan√ßa de transac√ß√Ķes correntes no passado e que salvou, dessa forma, as crises de desemprego e fome de ent√£o, garantindo as reservas de ouro necess√°rias para comprar o que n√£o se produzia.

Estamos a falar ent√£o de solidariedade e coes√£o territorial e intergeracional, assunto que infelizmente, muito poucos dirigentes pol√≠ticos sabem o que √©, a fazer f√© nas decis√Ķes que t√™m tomado sobre as reformas e aposentadorias. Pagam uns pelos outros. Mas neste caso pagam sempre os mesmos pelos outros pois emigraram e agora ficam sem as reformas‚Ķ

Um país desnaturado é o que é e salve-se quem for honrado e resiliente.

√Č neste contexto que o governo central gosta de decidir, ou seja, com as pessoas intimidadas fazem-se as grandes reformas, saem os melhores e v√£o resistindo os que gostam muito disto, os que s√£o parvos e os que n√£o t√™m mobilidade.

O meu desejo é que um dia a pescadinha lhes morda o cu.

Por: Pedro Guedes de Carvalho

Partilhe:

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

*

Comment moderation is enabled. Your comment may take some time to appear.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como s√£o processados os dados dos coment√°rios.