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QUE TEMPO ESTE!

J. Antunes de Sousa

J. Antunes de Sousa

Bem vistas as coisas, j√° n√£o √© s√≥ o tempo do boletim meteorol√≥gico (que doce que era a apresenta√ß√£o de uma menina que, diga-se, continua graciosa, chamada Teresa Abrantes!), j√° n√£o √© apenas o tempo clim√°tico que anda com o passo trocado, acusando, quem sabe, os efeitos do que se conhece como stress geop√°tico. √Č o nosso tempo interior, o tempo da alma, que, como desde 1952 verificou W.O. Schumann, se alterou tamb√©m: tudo parece precipitar-se como se tiv√©ssemos sido tomados de estranha vertigem.
Mesmo que isso soe a esquisito, uma certeza vos deixo: a Terra est√° doente, pois que, como ser vivo ‚Äď e ela √©-o sobremaneira! ‚Äď est√° sujeita ao que cremos ser o inelut√°vel destino de tudo o que vive.
Mas por que √© que se adoece? Basicamente porque nos domina a todos um pensamento megal√≠tico, com a idade do tempo todo do mundo, segundo o qual a coisa absolutamente mais certa que temos √© adoecer e‚Ķ morrer! √Č conhecida a sugestiva defini√ß√£o de sa√ļde como ‚Äú um estado passageiro que n√£o augura nada de bom!‚ÄĚ: √© esta cren√ßa universal, transcultural, que torna a degrada√ß√£o f√≠sica uma fatalidade inevit√°vel ‚Äď definhar, quanto muito com classe, com charme, mas sempre a definhar‚Ķsempre!
√Č parecida uma outra cren√ßa ‚Äď como somos sol√≠citos em aliment√°-las! ‚Äď que nos faz aceitar com evang√©lica resigna√ß√£o os efeitos disfuncionais – escrever para os jornais torna-nos docemente simuladores ‚Äď das famosas leis do mercado, precisamente um dos fen√≥menos modernos que levou Francis Fukuyama a decretar o ‚Äúfim da Hist√≥ria‚ÄĚ.
Mas o que s√£o, afinal, essas leis do mercado? Resumem-se, na verdade, a uma outra n√£o menos famosa, a ‚Äúlei da selva‚ÄĚ, s√≥ que com uma terr√≠fica nuance: porque degradada pelo prazer p√©rfido do ser humano que se compraz em chupar o tutano ao outro, n√£o porque disso necessite, mas porque disso se alimenta a insaci√°vel sede de um ego narc√≠sico e destrutivo.
E para aqui estamos n√≥s, que cometemos a fatal e insensata imprevid√™ncia de acreditar que a lei dos mercados √© em si mesma uma esp√©cie de absoluto antropol√≥gico e, por isso, com intr√≠nseca justifica√ß√£o √©tica, a espernear que nem r√©probos, enquanto os actores ub√≠quos e necr√≥fagos da agiotagem internacional se comprazem no jogo caprichoso e criminoso de sugar at√© as carca√ßas dos estados que embarcaram na ilus√£o da prosperidade na ponta das baionetas, ou, mais melifluamente, √† boca da urna de voto. Sim, o logro de uma democracia como ‚Äútake&way‚ÄĚ de uma felicidade imediata foi o grande aliado dessa s√≥rdida agiotice (gosto particularmente deste neologismo porque tem a sonora vantagem de rimar com idiotice!), que nos asfixia e garrota at√© ao sufoco e ao v√≥mito.
S√≥ que, c√° dentro, os d√ļplices comparsas dessa agiotagem, os bancos (com letra min√ļscula, como penico), insistem obsessivamente na sua idolatria, persistem no seu paradigma extorsion√°rio: aos clientes que deixam, por exemplo, de poder pagar as mensalidades do empr√©stimo √† habita√ß√£o, sacam-lhes as casas, mas com uma inef√°vel subtileza sem√Ęntica, comprovando o que j√° se sabia ‚Äď que n√£o h√° limites √† imagina√ß√£o quando se trata de sacar: continuam a consider√°-los devedores, mesmo depois de j√° terem devolvido a alegada raz√£o da d√≠vida ‚Äď as casas!
Este vampirismo desavergonhado diz bem até que ponto esta nossa sociedade está viciada no hábito alarve de sacar.
Entretanto, cá continuamos derreados sob o peso das exigências dos miríficos extorsionários, comoventemente disfarçados de bons samaritanos: nós e os gregos, sobretudo.
Que somos diferentes destes? Para al√©m do √≥bvio, s√≥ verdadeiramente no modo de amochar ‚Äď n√≥s com menos ru√≠do (por enquanto!).
Mas somos absolutamente iguais no que toca aos efeitos da pilhagem ‚Äď ambos igualmente nas lonas!
E ironicamente iguais na aflição: estamos a ver-nos igualmente gregos para pagar o que devemos!
Que n√£o dev√≠amos pagar? Isso √© muito feio ‚Äď n√£o pagar a quem se deve! O problema est√° no ponto do costume ‚Äď o serem sempre os mesmos a pagar, certamente os que menos contribu√≠ram para o buraco em que criminosamente nos meteram!
Alguém que nos lance uma corda!
Enquanto isto, a Terra l√° continua a recuperar dos seus achaques ‚Äď que ela est√° doente na medida em que n√≥s que dela fazemos parte integrante nos deix√°mos adoecer. Sim, ela vai seguramente recuperar o seu equil√≠brio ‚Äď s√≥ n√£o se sabe como ou a que pre√ßo.

Muitas cordas precisam-se! O problema, o magno problema: haver quem no-las lance!

Por: José Antunes de Sousa
“escreve sem o acordo ortogr√°fico”

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