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REVOLTA NA TURQUIA

Ditadura Mais Não!

Merve Arkan

Merve Arkan

A Turquia está a assistir nas duas últimas semanas a um dos movimentos mais fortes da sua história, por parte da oposição. Ninguém esperava que o plano do governo para demolir um parque no centro de Istambul e nele construir um centro comercial, viria a transformar-se num movimento popular anti-governo, como este. O AKP (Partido Justiça e Desenvolvimento) chegou ao poder em 2002, e alcançou grande sucesso nas três eleições gerais, em duas eleições locais e no referendo constitucional em 2010. Como partido islâmico, o AKP foi apresentado como um modelo de democracia para o mundo islâmico, especialmente para os países da Primavera Árabe, onde os islâmicos chegaram ao poder. O seu líder, Recep Tayyip Erdogan, foi apresentado como um líder carismático, que teve um enorme apoio popular. O governo do AKP foi muito bem-sucedido numa islamização gradual da sociedade, recebendo também o apoio dos liberais que estavam contra o sistema estatal patriota, e que era muito forte desde a fundação da república por Mustafa Kemal Ataturk.

Poder Absoluto Através da Democracia

Nas últimas eleições gerais, em 2011, o AKP obteve quase 50% dos votos. Isto mostrou como o AKP conseguiu ser um poder absoluto, de uma forma democrática, tendo a oportunidade de alterar todo o país, sem uma grande oposição. Mas a história mostra que este tipo de poder não dura para sempre. O AKP tem um grande plano para transformar o país e começou por brandir uma guerra contra a oposição, especialmente contra os membros mais seculares do exército. Como a Turquia passou já por três golpes militares na sua história, o AKP quis ver-se livre de outro golpe, prendendo os líderes mais proeminentes do exército. Durante os 11 anos de governo AKP, abriram-se muitos cursos islâmicos, tentou-se remover a proibição de véus para as mulheres, em locais públicos e chegou-se mesmo a legalizar alguns grupos islâmicos radicais. Eles têm o apoio dos capitalistas e dos meios de comunicação, silenciando quase todas as vozes opostas. O facto de que 72 jornalistas estejam ainda na prisão, mostra a dimensão da enorme opressão contra o direito da liberdade de expressão.

O Parque que Mudou a Turquia

Esta última revolta começou com a oposição contra o plano para demolir um dos poucos parques em Istambul, uma cidade com mais de 15 milhões de pessoas. O primeiro-ministro Erdogan anunciou o seu plano para mudar toda a praça no bairro Taksim. Eles também poderiam demolir o Centro Cultural Ataturk, onde havia muitos teatros e salas de ópera. No início, era um pequeno movimento contra o plano, mas a revolta tinha um fundo. Nos últimos meses, o governo aumentou a pressão sobre a sociedade. Eles demoliram um cinema histórico em Taksim para construir um outro centro comercial e usaram bombas de gás lacrimogêneo contra os manifestantes pacíficos. Proibiram a reunião do 1º de Maio na Praça Taksim e a cidade tornou-se como um campo de batalha, que opunha as pessoas que queriam celebrar o Dia do Trabalhador e centenas de polícias que usaram bombas de gás lacrimogêneo, carros blindados e canhões de água para dispersá-los. O Governo AKP que apoiou os terroristas radicais islâmicos contra o governo Sírio e colocou a sociedade turca em grande risco de guerra, ficou em silêncio por longo tempo, quando 51 pessoas morreram num ataque à bomba em 11 de Maio, em Rayhanlı, uma cidade na fronteira da Síria. O AKP culpou então o governo de Assad, mas para as pessoas em Reyhanlı, o responsável é o AKP e os combatentes da oposição Síria, que estão baseados em território turco há bastante tempo, com o apoio do AKP.

O governo estava muito certo de que iria oprimir qualquer voz contrária. No mês passado, o primeiro-ministro anunciou que iria proibir a venda de bebidas alcoólicas, entre as 22:00 e as 06:00, não hesitando em insultar os críticos, chamando-lhes “bêbados”. Em Gezi Park, enquanto um pequeno grupo de manifestantes estava alojado nas tendas, as máquinas de construção começaram a demolir árvores históricas, e a polícia usou novamente gás lacrimogêneo contra o grupo que tentou impedir a demolição, tendo também queimado as tendas de forma violenta. Esta foi a última gota de água que desencadeou a ira da sociedade contra opressão do AKP. O governo mostrou que não conseguia tolerar um simples protesto ambientalista totalmente pacífico e a resistência para proteger Gezi Parque levou a um enorme movimento popular contra o governo.

A Rua Tem Voz Própria

Centenas de milhares de pessoas saíram às ruas, não só em Istambul, mas em muitas cidades, apesar da violência policial, do uso de gás lacrimogêneo e todos os tipos de opressão, compreendendo que não tinham outra alternativa, senão a luta contra o AKP. Milhares de jovens construíram barricadas para entrar em conflito com a polícia e acabaram por libertar Gezi Park, a Praça Taksim e toda a vizinhança em redor. Duas pessoas morreram, centenas de pessoas foram presas e torturadas pela polícia, mas as pessoas de diferentes partes do país ainda estão nas ruas. Muitos liberais, muçulmanos, ONG’s, bem assim como grupos de esquerda, apoiam este movimento. O governo, crente de que tinha construído uma sociedade covarde, ficou muito surpreendido ao enfrentar uma revolta desta dimensão, e usa ainda todos os meios para oprimir a resistência. Em Izmir, uma cidade na costa oeste da Turquia, prenderam cerca de 30 jovens porque os seus “tweets” apoiavam o movimento de resistência. Erdogan, que estava numa viagem à África do Norte, ameaçou a oposição dizendo que tenta controlar seus partidários, que estão muito irritados, mas prontos para lutar. Agora, num país totalmente dividido entre os partidários do AKP e os da oposição que quer que o governo se demita, uma verdadeira luta pelo poder irá moldar o futuro da Turquia.

Por: Merve Arkan na Turquia – Istambul

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