SENTIR AINDA A VIDA …

Ernani Balsa

Ernani Balsa

Sentir a vida todos os dias. Acordar e tentar acreditar que a vida não vai, mais uma vez, piorar. Abrir os olhos e ver que a vida ainda continua e que depois da noite não se sucedeu a escuridão que todos receiam tomar conta de tudo. Viver a vida, um dia de cada vez e não nos atrevermos a desenhar o futuro. Apenas o dia seguinte. A notícia seguinte. A calamidade seguinte. Sentir a vida todos os dias e, apesar de tudo, ter medo do amanhã.

Vivemos a vida que nos deixam viver, não aquela que sonhamos. A esperança é uma folha de outono que esvoaça e se perde no nada da incerteza. Sentir a vida, ainda, e abrir os olhos. Erguer os braços, mas não sentir neles a força que antes nos fazia mover. Esboçar um sorriso, ainda, e ensaiar uma carícia nos caracóis de um filho que não sabemos o que vai ser. Acordamos e atravessamos desfiladeiros áridos e agrestes. Em cima, adivinhamos rostos de gente que nos olha, observando o esforço da nossa sobrevivência. Eles observam e comentam entre si, cada passo que avançamos e cada tropeção que nos dificulta o caminho. Pessoas de rostos sem expressão, de olhos sem olhar, de sorrisos ausentes. Olham-nos. Observam-nos, como se estivéssemos numa imensa gaiola, analisando o nosso desempenho em cada gesto que ensaiamos para chegarmos a um final que não existe. Mas ainda sentimos a vida, mesmo sem antevermos mais nada.

De distância em distância, projecta-se a imagem de um carrasco que nos ameaça e invectiva a continuar. Continuar o esforço, o sacrifício, o trilho pedregoso em direcção ao desconhecido e logo a seguir, o anúncio de novos castigos, inevitáveis punições e outras sevícias que nos enchem de dor e incertezas. Tudo o que fizemos até aqui está maculado pela culpa de sermos quem somos. E tudo o que já sofremos não acalmou a ira dos que nos acusam, nem serviu de nada para alcançarmos os resultados que nos anunciaram. Continuamos num circuito fechado de empobrecimento sem que o que poupámos até aqui tenha trazido sinais de um novo alvorecer. Apenas o crepúsculo da nossa sina nos guia pelos trilhos que nos obrigam a percorrer.

Vivemos quase todos numa penumbra que nos deprime e escurece cada dia que passa. Os carrascos visitam-nos periodicamente e olham-nos com sobranceria, libertam críticas, ameaças, assumem um ar cinzento e distante, como se evitassem contacto com contaminados por radioactividade. São vultos de vampiros que vêm e voltam para avaliar se os indígenas ainda têm sangue. Nos intervalos das suas visitas, os guardiões da nossa miséria bombardeiam-nos com ralhetes e censuras, prometendo-nos o melhor e o pior. O melhor são as mentiras dos números, os malabarismos dos indicadores, as idas aos mercados, que nos casos em que se concretizam, afundam-nos ainda mais com juros usurários e violentos. O pior, a que chamam emagrecimento do Estado, resume-se a impostos disfarçados, a cortes nas pensões e a um sem número de artifícios que nos deixam, dia a dia, mais vulneráveis com a destruição do que ainda resta do Estado Social. De cada vez que nos tiram e afirmam que é um instrumento temporário para equilibrar o défice, já sabemos que nada volta. Pior ainda, nem volta nem o défice diminui e a nossa dívida aumenta. Aqueles que se arvoram em líderes, são altos funcionários do roubo descarado, do assalto à mão armada com a corrupta autoridade do Estado. Eles têm todas as armas e nós todas fragilidades de quem não consegue defender-se.

Dizer que o voto é a arma do povo é hoje em dia já uma falácia, embora continuemos a votar e é bom que pelo menos não percamos o hábito. Mas na vergonhosa situação actual, o voto é apenas um gesto simbólico de quem não tem mais nada para se agarrar àquilo que resta da democracia. Depois do voto, o tremendo peso da realidade, leva a que nos esqueçamos das promessas e mesmo que nos lembremos delas, não há como fazê-las cumprir. Adormecemos sobre o descrédito da política e permitimos que os abutres esvoacem ignóbil e impunemente sobre os nossos restos de cidadania.

Hoje, propositadamente, em vésperas de eleições autárquicas, preciso de confessar a minha desilusão e ao mesmo tempo a minha revolta contra este estado de coisas. Não porque as eleições não continuem a ter o seu significado e não constituam um direito inalienável do cidadão, mas porque elas se esgotam depois da contagem de votos, da feira das vaidades e das vitórias de todos, mesmo dos que saem derrotados. Portugal é hoje um país a caminho duma derrota que ninguém sabe o que será e quanto nos custará, mas é uma derrota que não afectará todos, porque nas derrotas há sempre quem beneficie com o sofrimento da maioria. Quem esteja invulnerável, mesmo que chore lágrimas de crocodilo.

Mas como temos um governo que cuida de nós, se bem que cuide muito melhor ainda dos credores, já começam a falar num segundo resgate, por enquanto como ameaça pseudo pedagógica, mas mais tarde, como uma inevitabilidade que nos afundará ainda mais e deixará os eternos credores com a garantia de nos irem sugando o sangue, o tutano e as almas por muito mais tempo. É a epopeia da nossa miséria mais completa e do declínio mais conseguido dum país que já foi nação e hoje não passa dum instrumento dos mercados. É pena os nossos credores não irem eles próprios ao mercado do Bolhão, por exemplo, pois ali seriam presenteados com o mais belo léxico que ainda não foi banido pelo acordo ortográfico.

E entretanto, sentimos ainda a vida todos os dias, mas é uma vida cansada, exausta, sem energia nem dignidade suficiente para chamarmos as padeiras de Aljubarrota deste país, os Dom Fuas Roupinhos e outros valorosos defensores da nossa independência e soberania. Estamos acordados, só porque não nos largam com pesadelos que não nos deixam repousar e nos infligem torturas mediáticas e institucionais, que não nos deixam mergulhar num sono profundo de total abstração pelo mal que nos fazem. Ainda estamos vivos, mas já quase não reagimos. E mesmo assim, ainda sentimos vontade de usufruir da vida, mas só vontade, porque nos falta o incentivo, a energia e os meios. Somos um país agrilhoado nos nossos próprios medos e na tremenda inabilidade de liderança de uns quantos pedaços de nem sei quê, que tomaram de assalto as nossas vidas e o nosso futuro e querem também penhorar as nossas almas.

Amanhã, não se esqueçam, votem e votem bem, depois de fazerem um bom exame de consciência, nem que seja para manterem o hábito de meter na urna os vossos sonhos e os verem destroçados por quem só nos vende pesadelos.

Por: Ernani Balsa
“escreve sem o acordo ortográfico”

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One thought on “SENTIR AINDA A VIDA …

  1. António d'Almeida

    Quem dera que este teu texto pudesse ter sido lido antes por toda gente deste pobre País.
    Magnífico retrato e uma análise que diria perfeita.
    Cordial abraço

    Reply

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