ENTRE A DISPLICÊNCIA E A RAIVA INCONTIDA…

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Ernani Balsa

Ernani Balsa

Nada melhor do que sair por uns tempos do epicentro desta baixa depressão política que se vive em Portugal. Foi o que eu fiz e rumei à Suíça, só para ter oportunidade de ter a sensação do que é estar num país que parece não ter política, embora tenha. Não é minha intenção dissertar aqui sobre o sistema suíço de organização duma sociedade dividida em quatro províncias e vinte e seis cantões, que tem quatro línguas, territórios e identidades distintas, a alemã, a francesa, a italiana e a romanche, constituindo-se numa federação que é conhecida internacionalmente pela sua neutralidade e riqueza. Apenas posso dizer que se tem a sensação de estarmos num país super organizado, limpo, com uma excelente organização territorial e uma qualidade de vida invejável. Dizer que a Suíça é um país de maravilhosas paisagens, de prados, vales e montanhas em que sobressai um quase perfeito equilíbrio entre uma urbanidade com regras de exigência ambiental de assinalar e um respeito impressionante pela natureza, é já um lugar-comum. Mas é verdade. Sentimo-nos bem.

Serviu-me esta viagem para me desintoxicar do ambiente putrefacto da política portuguesa, que em cada semana que passa, parece competir para que o nível de degradação social, política e económica, se esforce em atingir valores cada vez mais baixos e vergonhosos, em que as tricas, os escândalos, os golpes baixos e a falta de vergonha ao mais alto nível se excedam a si próprios, numa espiral que resvala perigosamente para uma total desagregação das boas normas de convivência e cidadania. Regressei mesmo a meio de mais um episódio desta triste novela, com a demissão do Secretário de Estado do Tesouro, trama que acabei por não acompanhar nas suas mais escabrosas cenas, mas que já não me surpreendem.

Os portugueses estão mesmo cansados desta baixa política, de mentiras que são absurdamente levadas ao extremo da sua inconsistência, de tiradas discursivas que oscilam entre a ousadia da aldrabice mais vergonhosa e os silêncios mais comprometedores, que acabam por confirmar suspeitas e mesmo certezas que já ninguém tem a coragem de desmentir. De pessoas, figuras públicas responsáveis, governantes que deveriam primar por um elevado e impoluto nível de ética e de rigor e de todos os restantes agentes políticos que circulam na órbita do poder, ouvimos as mais vis afirmações, tentando dissimular o indisfarçável, ousando querer mascarar com rudimentares justificações, os inimagináveis jogos de influências e mesmo de fraudes, numa prática que já se confunde com a de organizações quase criminosas ou pelo menos de trapalhadas perigosamente à beira de um exercício despudorado de negócios à margem da lei. E os portugueses a tudo isto assistem, num misto de sofrida displicência e de raiva incontida.

É preciso que se diga claramente, que no meio de todas estas promiscuidades e interesses de duvidosa transparência, ninguém pode ser leal, simultânea ou alternadamente a Deus e ao Diabo. Não se pode um dia defender interesses privados e no outro defender interesses públicos sobre matérias que se confundem e conflituam na sua essência e ninguém se pode esconder por detrás de faltas de memória oportunas, em assuntos de tão sensível relevo, que têm a ver com a gestão da coisa pública e do respeito devido aos cidadãos e contribuintes.

Seria de esperar que os cidadãos pudessem e devessem confiar naqueles que são escolhidos para cargos de tão alta responsabilidade, que envolvem a gestão dos recursos do país e dos impostos a que todos são chamados a aceitar como o seu justo contributo para que o Estado possa respeitar as suas obrigações. Seria de esperar que os cidadãos se pudessem rever na honestidade, lealdade e espírito de bem servir daqueles que são escolhidos para governar o país. Seria de esperar que todos os portugueses, independentemente das suas opções ideológicas ou partidárias, pudessem minimamente confiar no seu governo e seus agentes, mas infelizmente não é o que se passa. A crise de confiança não reside na desconfiança dos cidadãos, mas sim na completa falta de verticalidade daqueles que, colocando-se no pedestal do seu umbigo, se julgam acima do escrutínio popular, arvorando-se em figuras de importância questionável, como se apenas o facto de serem quem são, os ilibasse de qualquer responsabilidade, constituindo-se assim em personalidade intocáveis, sagradamente impolutas e acima de qualquer suspeita.

Portugal não pode continuar a viver neste esterco e todos devemos reclamar decência no exercício de cargos públicos. Um governo, seja ele qual for, não pode fazer-se respeitar se não respeitar aqueles que lhes dão razão de ser. Todos temos o direito e o dever de exigir decência, honradez e transparência. Portugal não aguenta mais viver nesta lixeira de baixa e miserável política em que uns quantos, só para manterem o poder e tratarem dos seus negócios privados e lucrativos, não se importam de esgravatar despudoradamente no meio dos detritos da sua própria indignidade.

Por: Ernani Balsa
“escreve sem o acordo ortográfico”

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One thought on “ENTRE A DISPLICÊNCIA E A RAIVA INCONTIDA…

  1. António d'Almeida

    Meu caro Balsa,
    Deverias ter estendido as férias por tempo indeterminado,se pudesses,para não teres de partilhar da vil miséria e vergonha a que estes mais que polutos politiqueiros nos obrigam a assistir.
    Como de costume,na “mouche”.
    Um abraço e que não te falte a tinta na caneta e a força da justa raiva para gritar a revolta.
    Yuba
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    Reply

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