O PRINCÍPIO DO FIM “31 de Janeiro 1891”

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Carlos Fernandes

Carlos Fernandes

Em Agosto de 1891, o escritor Eça de Queirós desabafava com um amigo; «Eu creio que Portugal acabou. Só o escrever isto faz vir as lágrimas aos olhos – mas para mim é quase certo que a desaparição do reino de Portugal há-de ser a grande tragédia do fim do século». Todos sabemos que a época era pródiga em exageros, depois de um conflito diplomático com a Inglaterra em 1890, insurreição militar republicana  em 31 de Janeiro de 1891 e uma grave crise financeira em Maio desse mesmo ano, tudo parecia em causa; a independência do país, o regime constitucional, as finanças. A sequência catastrófica, tal como Eça vaticinava, fazia todo sentido.

O pessimismo era geral, tal como hoje, a pergunta impunha-se, «Há ou não há recursos bastantes, intelectuais, morais, sobretudo económicos, para Portugal subsistir como povo autónomo, dentro das estreitas fronteiras portuguesas?».

Neste tempo era esta a inquietação, a ansiedade fundamental que animou a última grande época do reformismo liberal e expansão ultramarina. Mas como todos sabemos nada terminou bem para o regime. “O princípio do fim”.

Nestes encontros e desencontros com as estórias da história, verificamos que o quadro social em Portugal, cada vez mais acentuava o desnível entre as classes. A miséria sentia-se menos quando todos eram miseráveis.

O cavador não tem reservas, escolas, crédito. Não tem eira nem beira. Não faz parte das colectividades locais, como centro de convívio resta-lhe a taberna.

A bíblica paz dos campos afunda-se na luta de classes e ambas as classes se consideram exploradas; a dos que trabalham porque recebem menos do que precisam, a dos que possuem porque lhes exigem mais do que podem. Diz um relatório oficial datado de 1887; «Esse fermento leveda e entretém nas classes ínfimas o ódio surdo contra as superioridades sociais. Tal é a razão que o latrocínio não é, a seus olhos, muitas vezes delito ou crime, é apenas uma vingança».

A ambição é a riqueza dos pobres dos mais desfavorecidos, os trabalhadores reagem às novas condições de vida no século XIX, fogem dos campos e procuram emprego nas cidades. Mas as reais possibilidades de emprego não são proporcionais à procura, a passagem do mundo rural ao mundo burguês é estreita, apertada e difícil; há muitos prédios mas poucas fábricas, portanto muitos lugares de criada, mas poucos de trabalho masculino, a catástrofe adivinhava-se, como única saída a emigração para o Brasil, talvez tenha sido o maior êxodo migratório de sempre.

A emigração verificou-se das regiões de pequena propriedade; quase não há alentejanos entre os emigrantes. A explicação está em que para a longa viagem, era preciso dinheiro e isso só se verificava nas regiões onde a maioria da população rural mantinha ainda alguns vestígios de propriedade; Minho, Douro, Beira Alta, Baixa e Litoral, o emigrante vendia a courela ou legítima, isto é, a porção de bens, que não poderia deixar de herdar, partia quase sempre sozinho, deixando na terra a família e as dívidas, a catástrofe era uma evidência .

O número de emigrantes regressados a Portugal não foi grande. A grande maioria partiu pobre e regressou pobre. Dizia-se à época que o Brasil era o cemitério dos portugueses, era este o quadro social de um regime com um fim mais que anunciado. O descontentamento era generalizado.

Na manhã de 11 de Janeiro de 1890, uma nota inglesa exigiu do Governo de Lisboa que, até à tarde desse dia, mandasse retirar as tropas portuguesas que se encontravam no vale do Chire. Um cruzador esperava a resposta. O governo cedeu.

Esse ultimato foi verdadeiramente um dos factos mais importantes do Portugal do século XIX. Nunca, creio eu, houve antes deste, momento em que o Portugal moderno estivesse tão acordado e atento.

Estes dois factores conjugados com a propaganda patriótica, tão bem evidenciada aquando das comemorações do centenário de Camões, a proliferação do jornalismo político, do crescimento dos grémios e lojas maçónicas, vieram engrandecer não só descontentamento, como as fileiras do partido Republicano.

Na mui nobre Invicta cidade do Porto, chamada por muitos na época de feitoria inglesa, que aproveitando o descontentamento corporativo dos sargentos do exército e a ressaca das humilhações diplomáticas de 1890, conseguiram levantar uns 800 soldados e ao som da Portuguesa, ocuparam a Câmara e aclamaram a república, os sinos da Lapa tocaram a rebate, a guarda municipal reprimiu violentamente, a república não resistiu mais que umas horas, alguns morreram, outros fugiram, à maioria esperava-os, ao largo de Leixões, o navio Moçambique que os iria  levar para o exílio.

Estavam consumados os primeiros mártires da república, foi o princípio. a 5 de Outubro de 1910, seria o fim.

Este ano assinala-se os 120 anos da primeira tentativa revolucionária, com o intuito de derrubar a monarquia.

A evocação do 31 de Janeiro há-de ser para nós hoje, não uma simples nostalgia que continua a levar às campas dos Vencidos a fidelidade reconhecida dos correligionários irmanados dos ideais da liberdade, da igualdade, da fraternidade, mas também, uma afirmação viva desta nossa Segunda República continuadora das lutas que ao longo de mais um século, deram ao povo português a sua dignidade e autonomia cívica, sem as quais, quer no plano político, quer no ético, não há Democracia digna desse nome.

É por acreditar e defender os mais nobres valores morais da república. Liberdade, Igualdade, Fraternidade, que republicano me confesso!!

Bem hajam.

Por: Carlos Fernandes
“escreve sem acordo ortográfico”

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