Que mundo é este?…

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Isto da informação é uma coisa potencialmente perigosa. E perversa. O facto das pessoas lerem muitas notícias, consultarem muitas páginas na Internet, deambularem até pelo Facebook e depararem com links que os levam ao fim do mundo, é de grande perigosidade. Uma pessoa gostar de se informar, deveria até ser desaconselhado, senão mesmo, proibido, mas a democracia, a liberdade, essa chusma de conceitos civilizacionais que certas elites e outros tantos lutadores e libertadores espalharam pelo mundo, acabaram por pôr o mundo em perigo. As pessoas, quanto mais sabem e conhecem, mais perigosas se tornam e acham que pensar vai salvar o mundo. Talvez não salve, mas fica-se a saber mais depressa que talvez estejamos cada vez mais perto do fim desta aventura da vida num planeta redondo e cheio de coisas anormais, para além do facto da própria vida, que continua a ser um mistério…

Pior ainda, é que hoje em dia, as pessoas informam-se das mais diversas maneiras e até em línguas estrangeiras. A história da Torre de Babel, que algum trabalho terá dado ao deus ou deuses da altura para confundirem a língua e assim a diferenciarem consoante os povos, para que não houvesse entendimento entre todos, foi no fundo uma estratégia para evitar a troca de conhecimentos, o que terá resultado durante uns tempos. Mas o homem é incansável em procurar contornar as suas insuficiências e logo encontrou maneira de arranjar meios de descodificar as várias línguas e torná-las legíveis e entendíveis para todos. Hoje em dia, a circulação da informação nas várias plataformas utilizadas para a sua difusão, não fica bloqueada por causa da língua. As pessoas têm conhecimento ou instrumentos com que facilmente ultrapassam essa barreira. Por isso, a informação se torna muito mais incómoda para quem gostaria de a restringir.
Vem tudo isto a propósito de uma reportagem que li recentemente sobre o Bangladesh. Imaginem o que será viver com um Euro por dia e alimentar uma família de cinco pessoas. Trezentos e sessenta e cinco dias por ano. A jorna traduz-se em um Euro e meio, mas cinquenta cêntimos são para pagar o aluguer do riquexó com que o chefe de família ganha a vida, pedalando e transportando turistas, das cinco da manhã às nove da noite. Isto acontece lá e em vários outros sítios, provavelmente. Este tipo de informação que logo se transforma em conhecimento, fez-me pensar. E pensar, como já disse, pode ser definitivamente perigoso, porque logo começamos a fazer comparações e extrapolações. Chegamos mesmo a ousar tirar conclusões. Mas o pior, são as interrogações, o soco na nossa consciência e uma tremenda azia na alma, que é aquilo que nos permite relativizar as coisas e erguer uma qualquer compensação para o que nem sequer é imaginável. Ficamos ali com a moeda de um Euro atravessada na garganta, sem saber se havemos de a meter ao bolso ou enviá-la em correio expresso para aquela família, que representa milhões de famílias com o mesmo salário… Este homem consegue ainda com o seu Euro diário, ter os filhos a estudar, porque lhes quer dar instrução e uma melhor vida. É um ser revolucionário e potencialmente perigoso também, porque quer proporcionar conhecimento aos seus filhos e assim pô-los a pensar para além do riquexó e do seu Euro por dia. Os seus filhos, temerariamente poderão vir a ter maior capacidade de informação e serão uma ameaça para este estado de coisas, que não são coisas, são vidas.

Pus-me a pensar, sempre esta intimidante mania de pensar e dei comigo a fazer comparações com o nosso país. Em Portugal há famílias que têm de se governar com o ordenado mínimo por mês, ou menos ainda, em muitos casos e algumas dessas famílias conseguem mesmo pôr os filhos a estudar, não cinco, talvez, pois como se sabe os portugueses deixaram de ter o hábito de ter filhos para além do sustentável e a miséria dessas famílias só não é comparável à do condutor de riquexó do Bangladesh, porque as infraestruturas do país partem de pressupostos diferentes, de um outro estádio de civilização que conseguimos graças ao facto de não sermos o Bangladesh. Mas o estigma da miséria está cá como lá. Um estigma que coloca as pessoas em prateleiras muito diversas de capacidade financeira para enfrentarem a vida que é comum a todos. E isto dá que pensar. A dificuldade de viver com trinta Euros por mês no Bangladesh aproxima-se factualmente da dificuldade de se viver em Portugal com quatrocentos e oitenta e cinco Euros mensais e insistir-se em por os filhos a estudar. E a minha capacidade de pensamento e imaginação não conseguem criar-me um cenário realista de como será viver nesse aperto orçamental todos os meses…

Depois de todas estas divagações, acabamos por aterrar na realidade. E com certa dificuldade conseguimos soletrar numericamente os três mil quinhentos e setenta e sete milhões de Euros de saldo negativo no BES, só nos primeiros seis meses deste ano. Claro que não conseguimos imaginar tal quantia em termos da nossa realidade de uma classe média, mesmo que esfarrapada e quase sem conserto, mas fica-nos pergunta, para onde marchou todo esse dinheiro? Que mundo é este que oscila entre um Euro por dia e este número obsceno que nem me atrevo a repetir aqui, em palavras ou números. Ao mesmo tempo na Faixa de Gaza dois povos combatem, crianças morrem quase todos os dias, os mísseis duns cruzam alguns poucos quilómetros e fazem alguns estragos, a máquina de guerra do ocupador bombardeia cidades, escolas, hospitais instalações da ONU, tendo, é certo, por vezes o caridoso cuidado de avisarem por telefone a chegada dentro de pouco tempo, dos seus mísseis realmente mortíferos e eficientes, tipo, “é só para avisar que provavelmente vão morrer dentro de… 5, 4, 3, 2, 1… zero minutos!”… Por outro lado, na Ucrânia, um avião comercial é abatido com um míssil sem identidade. Quase trezentas pessoas mortas e, passado todo este tempo, ainda não se conseguiu recolher todos os destroços de corpos, sim não são os destroços do avião, são de corpos de civis que viajavam numa rota comercial e nada tinham a ver com o estúpido e criminoso conflito que se desenrola, com o conluio de responsáveis e de irresponsáveis, mas todos unidos numa feroz chacina, que nenhum interesse nacional ou político justifica…

Que mundo é este!? Que pessoas somos nós todos que convivemos num mundo que ferve de ódios e de ambições desmedidas e injustificáveis?… Que futuro queremos para quem cá ficar, seja com um Euro ou com todos os milhões de Euros que alimentam esta loucura imparável?…

Ernani Balsa
“escreve sem acordo ortográfico”

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