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OP√á√ēES ESTRAT√ČGICAS DE PORTUGAL

(subsídios para uma discussão livre)

‚ÄúS√≥ h√° ventos favor√°veis para quem conhece o destino‚ÄĚ

Séneca

Quest√Ķes Fundamentais:

  • O que fazer para mudar as atitudes na sociedade portuguesa?
  • O que fazer para evitar o derrotismo e o fatalismo e incentivar o m√©rito e a ambi√ß√£o?
  • Que formas de participa√ß√£o pol√≠tica e social inovadoras e novos canais de comunica√ß√£o e divulga√ß√£o podem ser criados para recuperar o interesse das pessoas pela participa√ß√£o p√ļblica e c√≠vica?

O Discurso Arcaico:

Joaquim Rodrigues

Joaquim Rodrigues

Somos um país pobre, pequeno e periférico, por onde, há cinco séculos deixou de passar a civilização, onde os líricos que aspiraram a libertá-lo, a engrandecê-lo ou a modernizá-lo acabaram na forca, no esquecimento ou no suicídio.

O passado pesa-nos sobre os ombros. Deitá-lo fora é ilusório e qualquer avanço sem ele vai fazer-nos voltar atrás a buscá-lo. Viajar com ele, incrustado que está nos nossos hábitos, não é porém tarefa fácil.

Geopoliticamente, somos uma pequena potência, um país pequeno, com uma reduzida massa crítica, dependência alimentar e energética internacional, incapacidade de afirmar uma existência autónoma.

Os portugueses est√£o acomodados e vencidos, est√£o com falta de brio e de energia‚Ķ, sentem-se ultrapassados pelo mundo‚Ķ, andam tristes, esmagados pela crise, anestesiados pela televis√£o, endividados por um cosmopolitismo de bet√£o que lhes perpetua a infelicidade. √Č a ‚Äúapagada e vil tristeza‚ÄĚ que Cam√Ķes celebrizou ou a ‚Äúfeira cabisbaixa‚ÄĚ de que falava Alexandre O‚ÄôNeil.

O Discurso Moderno:

O presente e futuro de Portugal dependem de uma estrat√©gica inser√ß√£o na comunidade internacional. O ‚Äúgrande espa√ßo‚ÄĚ, numa l√≥gica de geometria vari√°vel, √© onde se joga a defesa dos interesses, ainda que em fronteiras long√≠nquas.

A revolu√ß√£o digital, que encurta o mundo e encurta o tempo pol√≠tico, contribui para a equidade e a qualidade da democracia. Corresponde ao mar de h√° 500 anos ‚Äď quando este separava, provou-se que, afinal, unia.

A miscigena√ß√£o cultural: africaniza√ß√£o, arabiza√ß√£o e islamiza√ß√£o – de pa√≠s de emigra√ß√£o, Portugal passou a pa√≠s de acolhimento ‚Äď forjam uma sociedade que queremos coesa e solid√°ria, com respeito e toler√Ęncia pela diferen√ßa.

Geopoliticamente, o actor internacional tem de olhar o mundo, numa visão sistémica daquilo que pode promover ou afectar o seu interesse nacional e actuar em conformidade, no espaço em que consegue desenvolver a sua acção estratégica. Onde se situa hoje a fronteira da soberania? Por onde passa a fronteira dos interesses nacionais? Qual a nossa co-responsabilidade, quer na fronteira global, quer quanto ao apelo de uma ética mundial?

Como pa√≠s mundialista que √©, com liga√ß√Ķes e interesses em v√°rias e vastas √°reas do globo, Portugal necessita de aperfei√ßoar a sua estrutura√ß√£o interna, potenciando as suas capacidades, para poder aprofundar a sua projec√ß√£o externa.

Quanto à Política:

Enquanto ci√™ncia, a pol√≠tica n√£o dispensa an√°lises altamente complexas e din√Ęmicas que permitam conhecer o passado, acompanhar o presente e, sobretudo, descortinar o futuro e agir sobre ele, tomando a dianteira dos acontecimentos e prevenindo os piores cen√°rios.

Enquanto arte, no campo dos valores da esquerda progressista, deve ajustar-se √†s batalhas da modernidade, criando condi√ß√Ķes para que, na era da revolu√ß√£o digital, organiza√ß√Ķes e indiv√≠duos dominem as modernas formas de interven√ß√£o. √Č que, perante os mesmos desafios, h√° quem veja amea√ßas e h√° quem veja oportunidades, e h√° quem transforme as primeiras nas segundas.

A pol√≠tica (condu√ß√£o da p√≥lis, uma p√≥lis exigente, a p√≥lis do s√©culo XXI) √© um produto da ambi√ß√£o (vontade; querer) pela ac√ß√£o (antecipando desafios e potenciando solu√ß√Ķes), i.e.:

POL√ćTICA = Capacidades x Vontade

Esta trilogia converge no conceito de Estrat√©gia, para repensar Portugal, no √Ęmbito da pol√≠tica interna, mas muito especialmente no plano da pol√≠tica externa, atrav√©s da qual o nosso pa√≠s se poder√° verdadeiramente afirmar no mundo. O que pressup√Ķe, por vezes dolorosamente, o afastamento de certos arqu√©tipos arcaicos e, a um s√≥ tempo, a assun√ß√£o de uma governance ajustada aos novos desafios da matriz universalista portuguesa. Com menos hard power e com mais soft power, encurtando a dist√Ęncia entre o Estado e a sociedade civil, flexibilizando organiza√ß√Ķes e processos produtivos e emancipando as pessoas.

Transformar o Homem…, Mudar a Sociedade:

Todavia, o conformismo e a resigna√ß√£o s√£o, demasiadas vezes, atrozes. O 25 de Abril foi h√° menos de 40 anos e, quem n√£o se lembra, h√° uns tempos atr√°s, dos outdoors espalhados por Lisboa exibindo um an√ļncio de uma r√°dio pimba que nos dizia; ‚ÄúPol√≠tica? Ouve s√≥ o que te interessa.‚ÄĚ Era uma menina com dois br√≥colos enfiados nos ouvidos que apelava √† inconsequ√™ncia, √† demiss√£o, ao gosto pela ignor√Ęncia. Ou ainda, numa conhecida revista semanal, o principal piv√īt da televis√£o p√ļblica, que vive por conta da sua visibilidade e do exemplo que d√° aos portugueses, afirmar orgulhoso: ‚ÄúSou uma pessoa normal, n√£o reciclo o lixo. √Č complicado: um saco √© azul, o outro n√£o sei o qu√™…, uma confus√£o.‚ÄĚ A verdade √© que a nossa sociedade tem convivido bem com estas atitudes deprimentes, caso contr√°rio estariam j√° extintas ou em vias de extin√ß√£o.

Transposto para a governa√ß√£o, aquele conformismo bloqueia a ac√ß√£o pol√≠tica, transforma a pol√≠tica na arte de n√£o fazer nada, que no passado j√° experienci√°mos em Portugal e que nos conduziu √† actual depend√™ncia externa: durante muito tempo, bastava deixar sempre bem clara, para cada √°rea da governa√ß√£o, a aus√™ncia de uma ideia, de uma estrat√©gia. N√£o s√£o todos os que conseguem ser bons a n√£o fazer nada, h√° que reconhec√™-lo! Sobe o bar√≥metro das sondagens, cai a pique o futuro das pessoas, dos portugueses, e isso explica que gera√ß√Ķes anteriores tenham proibido os actuais jovens de ter futuro.

H√°, pois, um corte a fazer na sociedade portuguesa ‚Äď √© o corte com a mediocridade, com a desresponsabiliza√ß√£o, com a impunidade e com as meias-tintas que, nalguns sectores, t√™m ra√≠zes muito profundas. O que s√≥ √© poss√≠vel atrav√©s da afirma√ß√£o das ideias e da pol√≠tica, hoje na gest√£o de uma p√≥lis bem mais complexa, exigente e estimulante, em que se articulam os planos global, regional, nacional e local. Mas sem nunca governar abaixo dos direitos de cidadania.

J√° algu√©m viu algum ministro, algum reitor de uma universidade ou um director de empresa reconhecer numa confer√™ncia de imprensa: ‚Äú√Č verdade, tomei uma decis√£o errada e o que vou fazer para a corrigir √© o seguinte…‚ÄĚ? O dia em que em Portugal as pessoas com visibilidade come√ßarem a reconhecer as suas responsabilidades ser√° o dia que marcar√° um passo em frente para uma sociedade melhor, de uma ponta √† outra. Porque as pessoas com poder, estabelecem padr√Ķes para toda a sociedade.

Por outro lado, o desafio da moderniza√ß√£o pressup√Ķe sempre um combate ao status quo, √† especula√ß√£o, √† discrimina√ß√£o e ao corporativismo. Quase todos se lamentam dos pol√≠ticos que temos mas muito poucos se prop√Ķem como alternativa ou combatem os que acham corruptos ou incompetentes. Quase todos desprezam os intelectuais que temos, os artistas, os jornalistas, os escritores, porque s√£o minorit√°rios e estrangeirados quando, na verdade, precis√°vamos era de uma elite de bons portugueses, fossem eles professores, intelectuais, pol√≠ticos, artistas ou outros, com percursos de vida seriamente estruturados.

Se somos livres, aos nossos pais e avós o devemos. Saibamos preservar essa Liberdade, ampliá-la no aprofundamento da Democracia, explicá-la às pessoas, colocá-la ao serviço da afirmação de Portugal no mundo, de modo a continuar a sermos o que queremos.

Fazer pol√≠tica √©, antes do mais, assumir a responsabilidade de conceber e implementar boas √©ticas, ter a ci√™ncia e a arte de as passar √† pr√°tica e alargar os seus frutos √†s gera√ß√Ķes vindouras, construindo solidariamente e fraternalmente as solu√ß√Ķes do presente e do futuro. E construindo a esperan√ßa.

Por: Joaquim Rodrigues
“escreve sem acordo ortogr√°fico”

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