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Um açougueiro conta que, quando saem para 'trabalhar', viajam de jipe ​​para uma fazenda de gado nos arredores de Havana. “Roubar vacas não é fácil. Se for apanhado pela polícia, pode-se ser condenado de oito a vinte anos de prisão.
Sayli Navarro e seu pai, o ex preso político Félix Navarro, de 68 anos, foram condenados a 8 e 9 anos de prisão, no passado mês de abril.

Ser opositor em Cuba por ‘Ivan Garcia’ em Havana

Um açougueiro conta que, quando saem para ‘trabalhar’, viajam de jipe ​​para uma fazenda de gado nos arredores de Havana. “Roubar vacas não é fácil. Se for apanhado pela polícia, pode-se ser condenado de oito a vinte anos de prisão. Sem contar que quase todos os camponeses agora têm armas de fogo. Apesar dos riscos, o abate ilegal de gado está a aumentar a cada ano. Graças a nós, muitos cubanos podem comer carne bovina”.

Como muitos cubanos, este carniceiro está descontente com o governo. Ele acha que administram o país, muito mal. A palavra democracia soa bem para ele. “Gostaria de votar para eleger o presidente, fazer greve para exigir aumentos salariais e que opiniões políticas divergentes não sejam crime. Mas isso em Cuba nunca vai acontecer. O medo é demais, começando por mim. Tenho mais coragem para abater uma vaca no meio da escoridão da noite, do que pertencer a um grupo de oposição politica”.

Porque será que ser dissidente causa tanto medo em Cuba?, pergunto. “Porque a Segurança coloca o dissidente contra as grades. Um cara que rouba cimento, combustível ou uma vaca, pode comprar policiais e funcionários corruptos. O opositor é perseguido pelo governo. Você só tem duas opções, ir para a prisão ou sair do país”, responde.

Um vendedor de bolas (loteria ilegal) coincide com o açougueiro: a pior escolha que que se pode fazer em Cuba, é ser-se opositor político.

“É preciso ser muito idealista e, claro, corajoso, para desafiar o governo. Até o final da década de 1980, o Estado perseguia o jogo proibido e a prostituição. Mas como há tanta corrupção, algumas autoridades policiais e políticas fazem vista grossa, exceto a venda de drogas, que é um pouco mais perseguida, mas nunca tanto quanto a oposição. Os cubanos, apoiando ou não o governo, compram carne ilegal, pagam a uma prostituta, montam uma festa ou jogam na bola (lotaria ilegal), para ver se ganham um parlé (uns trocos) que resolvam os seus problemas financeiros”, argumenta o bolitero.

Para ele, ser dissidente é outra coisa. “Eles podem condenar o cidadão a muito tempo de prisão. Quem vive fora da lei, quando num bairro um adversário provoca a presença constante de policiais e seguranças, os vizinhos têm que parar com seus ‘bisnes’ (negócios), ficam chateados com o dissidente e até desejam que ele seja preso. A segurança sabe disso e manipula os vizinhos, porque em qualquer bairro existe comércio ilegal e os vizinhos lucram com o que cai do camião.”

Carlos, sociólogo, considera que “os cubanos não têm um DNA diferente, nem somos mais ou menos covardes que os outros povos. Nos sistemas ditatoriais, as discrepâncias políticas são controladas, causando pânico na população. O modelo cubano, embora esteja num momento de declínio, permite ilegalidades como jogos proibidos, prostituição e aluguer do ‘Paquete’, entre outras ilegalidades que não causam conflitos, desde que fiquem fora da política. O regime de Castro sobreviveu porque está claro quem é o seu inimigo. Chegam a fazer alianças com religiões que antes proibiam e permitiam condutas que no passado puniam. Essa permissividade nunca esteve e nunca estará com a oposição política. É cavar sua própria cova.”

O sociólogo acha que gerar mudanças democráticas de forma pacífica numa ditadura não é um caminho animador para os cidadãos. “O grupo Solidariedade de Lech Walesa na Polônia, por exemplo, conseguiu criar um movimento dissidente forte e popular porque Walesa trabalhou nos estaleiros de Gdansk e lá, com o seu trabalho sindical, conseguiu organizar uma rede de oposição, com o apoio da igreja catolica e o forte sentimento anti-soviético entre a maioria dos polacos, incluindo funcionários do partido comunista. A perestroika de Gorbachev permitiu que Walesa se consolidasse e forçasse o governo do general Jaruzelski a negociar. Com a queda do Muro de Berlim e o fim da ditadura de Erich Honecker, na ex-Alemanha Oriental, aconteceu algo semelhante, por isso, a primeira medida que os serviços especiais de segurança fazem em Cuba, contra um novo dissidente, é expulsá-lo do emprego e cortar-lhe os laços com o resto da sociedade”, sublinha Carlos e conclui :

“Além disso, o modelo autocrático cubano desenhou um controle social que começa no bairro, continua na escola e mantém-se no local de trabalho. Eles têm a seu favor os clãs corruptos que prevalecem no setor de turismo, gastronomia, lojas de alimentos e empresas lucrativas, nas quais a corrupção estabelecida, permite lucrar com bens do Estado desde que você não se envolva em ‘atividades contra-revolucionárias’. Esse facto impediu que a oposição na Ilha tivesse uma base sólida da classe trabalhadora. É em certos setores intelectuais que a barragem se rompeu. Mas o medo continua a superar o desejo de trabalhar, de forma organizada, para a mudança democrática.”

Quanto tempo pode durar o Castrismo? Raydel Fernández, financeiro cubano residente na República Dominicana, considera que com “a morte de Raúl Castro, o único freio e suporte do frágil equilíbrio atual na luta pelo poder na ilha, a construção institucional que sustenta a ditadura (FAR, MININT e PCC ) sofrerá um terremoto e haverá um colapso interno geral”. Isso pode acontecer num período de três a cinco anos, prevê Fernandez.

O regime verde-oliva mostrou resistência à prova de bala. Sobreviveu à queda do Muro de Berlim em 1989, à ex-URSS em 1991 e em Cuba ao chamado Período Especial, uma fase de penúria coletiva com apagões de doze horas que começou em 1990 e durou até 1997, ou como sucedeu com o protesto em Havana, em 5 de agosto de 1994, conhecido como Maleconazo. Além disso, a morte de Fidel Castro, em 2016. Recentemente, as manifestações de milhares de cubanos em 11 de julho de 2021 exigiam liberdade e democracia em mais de 50 localidades do país.

Com uma oposição fragmentada e reduzida pelo assédio policial, repressão, prisão e exílio, as alternativas de mudança limitam-se a prováveis ​​reformas políticas dentro do regime, protestos de rua em massa ou ao fator biológico após a morte de Raúl Castro. É como jogar à moeda. É por isso que os cubanos optam por emigrar.

Ivan Garcia
Jornalista Independente “Desde La Habana
Tradução: Carlos Santomor

Foto: Sayli Navarro e seu pai, o ex-preso político Félix Navarro, 68 anos, foram condenados em abril passado a 8 e 9 anos de prisão, respectivamente. Os dois foram presos por terem participado dnuma manifestação em Matanzas, em 11 de julho de 2021. Sayli é ativista de direitos humanos e Dama de Branco, e Félix, presidente do Partido pela Democracia Pedro Luis Boitel, recebeu em 2015 o prêmio Solidariedade 2015, da Fundação Konrad Adenauer da Alemanha. Foto do Diário de Cuba

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